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domingo, 6 de novembro de 2011

Fugas

Enquanto ela se entrega a árdua tarefa, deixemos a leitora com os seus pequenos prazeres: Música.


Johann Sebastian Bach


[É tão antiquada, a nossa escola. Ainda e sempre as mesmas provas, quaisquer que sejam as mudanças. Como há décadas, desconsiderando continuamente a vertente artística, esquecendo o tempo...]

domingo, 9 de outubro de 2011

Mestres

O psicanalista tem de fazer psicanálise, diz-se.
Quem ensina tem de aprender e ver-se a aprender, diz.

sábado, 3 de setembro de 2011

A Escola Pública

Esta leitora acredita na escola pública como um factor de integração e coesão social, de democracia. Reconhece-lhe um papel semelhante ao que MGLlansol atribui ao romance, uma vez que também aí a diferença se pode olhar nos olhos e descobrir-se igual no coração do humano.


No entanto, há que dizer que foi através do romance, assim como, e em paralelo, do voto universal, da instrução obrigatória e generalizada, e dos sistemas de Previdência,
que se fez a integração social da sociedade moderna,
baseada no primado da liberdade de consciência.
O romance trouxe uma visibilidade imaginária, mas verosímil, do "privado" de classes e castas que praticamente se degladiavam, na base de preconceitos mútuos. O romance pô-las em contacto entre si, e veículou o sonho da fraternidade universal dos homens,
porque todos os homens são iguais perante a existência enigmática.

Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig 1: O encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994.



Termina esta entrada com um registo mais popular, em defesa da liberdade e da escola:

 
"É certo que, na escola, ser marrão não será a característica que maior popularidade confere, mas afianço-vos que dará muito jeito mais tarde. Não há riqueza maior do que saber pensar de forma livre e crítica. É para isso que a escola serve. Por isso, aproveitem-na bem. Marrona dixit!"

Ana Bacalhau, "Ó Marrão, Marrão, que vida é a tua?", Revista Única: Expresso, 3/09/2011.

domingo, 31 de julho de 2011

Vozes que fazem falta: Helena Carvalhão Buescu

No Público de hoje, lê-se um artigo da Professora Helena Carvalhão Buescu  sobre os exames nacionais e o ensino do Português, em que se salienta o essencial do desastre evidente. Transcrevem-se algumas passagens, para reflexão ou tomada de consciência:

"[...]
Ora, a realidade é esta: desde 2002 que (como demonstrou Maria do Carmo Vieira) o ensino do Português tem vindo consistentemente a diminuir e até a excluir a dimensão literária, para acentuar textos informativos e sobretudo técnicos, como abundantemente se sabe (e os pais, em particular, deviam saber). E, em vez de privilegiar o uso da língua, tem vindo a ganhar espaço uma estratégia que passa pelo incremento da metalinguagem, de forma absolutamente desproporcionada e sobretudo desadequada aos vários níveis de aprendizagem. [...]
Os resultados estão à vista de todos. A diminuição do ensino da literatura (e o correspondente facilitismo) tem trazido melhores resultados aos nossos alunos, senhora presidente da Associação de Professores de Português? Todos vêem que não. Há, pois, que deixar de manipular os resultados e os factos, há, pois, que ter a coragem de dizer que os últimos dez anos têm produzido piores alunos, com maiores deficiências ao nível da compreensão e da escrita e, por isso, com maiores dificuldades de pensamento. Isto significa em Português - o que, em Portugal, significa também em todas as outras disciplinas. E em todas as vertentes da vida como lugar de cidadania, de cultura e de arte.
[...]
Perguntei uma vez, torno a perguntar agora: que perfil queremos para os nossos filhos? Queremos apenas que saibam elaborar actas? Ou queremos que, ao serem confrontados com as alegrias e as dificuldades do saber pensar, possam estar à altura do futuro que para eles preparamos?
Não é dever do ensino básico e secundário preparar o difícil, para que cada um, em seu momento, possa "passar além da Taprobana"? Ah, pois é, Camões falou também para nós..."

Helena Carvalhão Buescu, "Há que deixar de manipular os resultados e os factos", Público, 31/07/2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Os Mestres não são burocratas

Em dias de exames e burocracias, são indispensáveis as boas leituras:

"O professor tem consciência da magnitude e, se quisermos, do mistério da sua profissão, daquilo que professou num juramento de Hipócrates tácito. Proferiu votos solenes. Existem afinidades - sempre alvo de questionamento, ou até  de ironia - com o oracular [...]
Os perigos são proporcionais à exultação. Ensinar com seriedade é lidar no que existe de mais vital num ser humano. É procurar acesso ao âmago da integridade de uma criança ou de um adulto. Um Mestre invade e pode devastar de modo a purificar e a reconstruir. O mau ensino,  a rotina pedagógica, esse tipo de instrução que, conscientemente ou não, é cínico nos seus objectivos puramente utilitários, é ruinosa. Arranca a esperança pela raiz. O mau ensino é, quase literalmente, criminoso e, metaforicamente, um pecado. Diminui o aluno, reduz a uma inanidade cinzenta a matéria apresentada. Derrama sobre a  sensibilidade da criança ou do adulto o mais corrosivo dos ácidos, o tédio, o metano do ennui. Para milhões de pessoas, a matemática, a poesia, o pensamento lógico foram destruídos por um ensino inane, pela mediocridade, talvez subconscientemente vingativa, de pedagogos frustrados. As vinhetas de Molíère são implacáveis."


George Steiner, As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005 (trd. Rui Pires Cabral).

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Para meditar:

O professor de Português e a leitura

Chegou hoje um livro fundamental sobre a leitura e a literatura portuguesa, a ler demoradamente, nos dias quentes que se aguardam. Aqui fica um apontamento para meditação:


"A responsabilidade do professor de Português exige que ele seja um profissional informado (quer dizer, que sabe muito mais do que aquilo que utiliza e mostra no seu trabalho quotidiano de docência) e entusiasmado (quer dizer, desenvolvendo em si próprio e nos seus alunos a capacidade de aprender com alma, com alegria). Por isso mesmo, o professor de Português não pode limitar-se a glosar os manuais e os livros do professor que os acompanham, nem a transmitir aos seus alunos, mas em versão reduzida, conhecimentos adquiridos ao longo do seu processo de formação. Lendo os ensaístas e os críticos como Eduardo Lourenço, e continuando a lê-los ao longo do nosso percurso de professores, tornar-se-á evidente que o saber que da leitura nos vem constitui uma actividade vital. E que ler poesia é estar apto a pensar-nos no mundo, é, em suma, viver melhor - porque, como aprendemos com Eduardo Lourenço, a poesia é a realidade, enigmática e luminescente como a Esfinge ou como a face de um antigo deus."


Paula Morão, "A Poesia como Realidade - Eduardo Lourenço e o Ensino do Português" in O Secreto e o Real: Ensaios sobre Literatura Portuguesa; Lisboa, Campo da Comunicação, 2011, p. 40.

Das leituras escolares obrigatórias

A propósito da ausência de Camilo no currículo escolar  (de Camilo Castelo Branco, entenda-se, que do outro, Camilo Pessanha, quase todos se esquecem), escreveu esta leitora:


 Todos temos crenças sobre as leituras escolares e as consequências das obrigações implicadas. Diz-se que o dever impede a criação de leitores daquele autor clássico lido a contragosto, muitas vezes sob a forma de resumo...
Ora, se esta ideia será visível em certos casos, noutros é exactamente ao contrário. Há quem tenha gostado muito de Herculano, nos seus dezasseis, dezassete anos, e não tenha gostado nada de Cesário, por exemplo, e que, mais tarde, se tenha tornado leitora de ambos, especialmente do último. Na minha perspectiva, o que condiciona indelevelmente o futuro é a ignorância e a insistência nela, em nome do prazer (na sua dimensão lúdica, apenas) ou do útil. Assim, ainda mais chocante que a ausência de Camilo nos programas de Português é a rasura da poesia trovadoresca, de muitos dos clássicos da nossa literatura e a indefinição quanto à poesia do século XX, a que alguns chamaram o século de ouro da poesia portuguesa. E todo este silenciamento para quê? Para se introduzirem os textos utilitários, tais como requerimentos, regulamentos e quejandos?
[...]

terça-feira, 3 de maio de 2011

Arrumar o escritório

... facturas, recibos, contas de telefone, televisão, internet e etc., avisos, informações, ofertas (?), publicidade, propaganda, seduções manhosas, fichas, fichas formativas, informativas, de trabalho, mini-fichas, testes, enunciados, correcções, grelhas, mais grelhas de observação directa, indirecta, assim-assim, a modos que enviesada, quadros de registo de avaliação qualitativa, quantitativa, sem medida objectiva a conhecer, pois, pautas, actas, planos, projectos, planos de projectos de actividades, impressões de pdf, powerpoint, imagens, letras, quadros, esquemas, sistematizações, jornais, revistas ontem interessantes, manuais, livros, poesia, drama, ensaio, romance, contos, fragmentos vários, literatura prática, auto-ajuda, lilaz carriço, cadernos, caderninhos, blocos, bloquinhos, poemário, cozinhário, prontuários, ficha de inscrição em pilates, com informações esclarecedoras, claro, dicionários, de língua portuguesa, de outras línguas, de literatura, etimológico, de sinónimos, de verbos, de termos literários, de santos, gramáticas, científicas e pedagógicas, strepsils, tubos de cola, canetas, réguas, lápis, lapiseiras, canecas, vasos, porta-canetas, calendário, pastas, maxilase, pastas coloridas, de plástico, de papel, com elásticos, sem elásticos, dossiers, de arquivo ou não, livros para arrumar na estante um dia, cds, cdroms, dvds, carregadores, caixas, mais caixas e caixinhas, papel de impressão, de rascunho, navigator, grelhas, de avaliação, de avaliação do primeiro período, do segundo, bolsa, fichas, chapéu-de-chuva, comprado em varsóvia, made in china, histórias da literatura, casacos, outra grelha, e outras, agora de objectivos, de descritores, de níveis de desempenho e já outra de observação, telefone, um texto de ontem, fichas de auto-avaliação, o novo estatuto e as suas onze (?) emendas, longman dictionary of contemporary english, larousse, dicionário terminológico compreender a tlebs, pois, livros, capa dura, capa mole, encadernados, forrados a papel de lustro, de embrulho, giro, está bem, dicionário de mitos, literários, femininos, d'aujourd'hui, marcadores, post it, separadores, instruções para telemóvel, para relatório de auto-avaliação, relatório, relatório de, outro, outro, rato, tapete, o que é a atmosfera modificada?, clips, apontamentos de acção de formação, layouts de acção, retirados de wiki respectivo, plano de acção da turma, pat, pit, tantas siglas para quê, pif, mais uma, com grelha de avaliação, pois claro, manual de instruções, leque, lixo, antologia, lenço, furador, suporte de leituras, e de costas, almofadas, grelha, lista de especiarias, lápis, coisa, moldura com fotografia, outra, flores de plástico em jarra suspensa, ovo, lápis grande com britânicos, fios, cabos, fichas, isto, cola, fita-cola, lupa, rascunho (de relatório?), carta formal, parte de carta formatada, caderno de actividades, livro do professor, preparar os exames, marcadores, elásticos, aquecedor e ventoínha, para os dias desconformes, carteira, mala grande, mala pequena, pasta, pasta simples, pasta muito completa com compartimento para o portátil, o rato, a pen, as bolachas com recheio de maçã, candeeiro, coisa, colunas, a arte de ensinar (género...), espantalho com seta, inventor de jogos, tubos dourados, diário íntimo, fichas biográficas, guião, grelha de quê, mais uma ...

sábado, 27 de novembro de 2010

A leitura e a liberdade

No Verão passado, Alberto Manguel deu uma interessante entrevista ao jornal Público, em que se evidencia o seu lúcido olhar sobre o nosso tempo. Apresento alguns excertos dessa conversa:


Alberto Manguel
“Estamos a destruir o valor do acto intelectual”, Ipsilon (suplemento do Público), 2 de Julho de 2010, pp. 30-33. Entrevista de Ana Gerschenfeld.

[O acto intelectual]


“Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.”

[As novas tecnologias e a leitura]
“ […] O problema não está na invenção de novos suportes para a leitura. Surge quando esses suportes são promovidos por razões puramente económicas e nos tentam convencer a substituirmos tudo por esse único suporte.”

“O problema com a Internet é que nos dá a ilusão de possuirmos toda a informação que contém. Mas o facto de essa informação existir não significa que seja nossa. Temos de saber procurá-la, saber se é fiável ou não, saber utilizar as associações que fazemos. Podemos brincar com a Internet dias a fio, à procura de anedotas, de bocados de informação recôndita, etc. É óptimo, mas tem de haver uma actividade mental capaz de incorporar, destilar, recriar essa informação. Ora, um dos grandes problemas actuais dos bibliotecários é que os jovens que chegam às bibliotecas, e que estão habituados a utilizar a Internet para fazer uma espécie de colagem da informação, não sabem ler. Não sabem percorrer um texto para extrair aquilo que precisam, repensá-lo, dizê-lo com as suas próprias palavras, comentá-lo, associá-lo ou resumi-lo – e sobretudo, memorizá-lo –, actividades que fazem parte da leitura enquanto acto criativo. Estão habituados à ideia de que, como isso está lá e está acessível, já é deles. Não é assim.”

[A culpa é da escola ou da Internet?]
“A escola não tem culpa, é a nossa sociedade que é culpada. A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa.
Nesses centros de aprendizagem, estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma – que também já lhes estão a tirar. O que estamos a fazer é horrível.
Não tem nada a ver com os valores da Internet, com a competência do professor, faz tudo parte de um conjunto. Somos culpados enquanto sociedade.”

[Sobre o conhecimento/leitura de certos livros, que antes se deveria ter lido]
“A questão é que deixámos cair a noção de “ser culto”. Agora, não passa pela cabeça de ninguém dizer que uma pessoa é culta ou não é culta. Como já disse, há uma perda de prestígio do acto intelectual. Hoje, uma pessoa pode admitir que é estúpida, que passa o seu tempo a jogar jogos de vídeo ou que só se interessa pela moda. Não vai chocar ninguém. Antes, tínhamos vergonha de dizer coisas dessas, mas hoje é espantoso ver o número de pessoas adultas que jogam jogos totalmente imbecis.”

[Os clássicos]
[…] Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores. E isso continua a ser importante, embora muitos leitores – e muita gente – não o reconheçam.
As crianças têm uma imaginação activa, uma inteligência activa. Querem aprender a pensar. Na Idade Média, amarrava-se as crianças ao berço para as imobilizar. Hoje, amarramos a mente das crianças exactamente da mesma forma.”