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quinta-feira, 10 de maio de 2012

Tristão e Isolda

G. considera MC mais adequado às «Massas» e a leitora não pode deixar de concordar, embora lhe custe. Transige na clareza da luta de classes, bem como na inequívoca «verdade» do amor, sem dúvidas, sem culpa, sem sombra de remorso ou amargura... tão longe desse extraordinário mito que ilumina os amores no Ocidente: o romance de Tristão e Isolda.

A narrativa de Bédier inicia-se assim:

"Quereis ouvir, senhores, um belo conto de amor e de morte? É de Tristão e Isolda, a rainha. Ouvi como em alegria plena e em grande aflição eles se amaram, depois morreram no mesmo dia, ele por ela, ela por ele."

Joseph Bédier, O Romance de Tristão e Isolda, S. Paulo, Martins Fortes, 1998 (trad. Luís Cláudio de Castro e Costa).

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Leituras obrigatórias

Até 2004, os professores do ensino secundário podiam escolher o romance do século XX que leriam com os seus alunos; esta escolha não era completamente livre, uma vez que tinha de ser consensual na escola, para além de estar limitada às obras indicados no programa, mas, ainda assim, havia alguma abertura. Não me lembro de todos os títulos, somente daquele que leccionei mais vezes - Aparição, de Vergílio Ferreira - e daquele que muitas escolas preferiam e que agora é de leitura obrigatória para todos. O Prémio Nobel atribuído a um escritor português veio, afinal, impor o elogio do mesmo, em vez de promover o gosto do diverso.

Deixo aqui uma passagem desse grande romance que é Aparição, cujo protagonista é Alberto, um jovem professor que se conhece a si mesmo, na nova cidade onde foi "colocado", Évora, através do convívio com as pessoas com as quais se cruza, especialmente as irmãs Moura: Ana, Sofia e Cristina. De todas, destaco a primeira, porque é a minha preferida  e porque o "folhetim" que ainda agora começou em Um jeito manso tem como protagonista uma outra misteriosa Ana.


"E contou, contou largamente, mas como um estranho, os silêncios de Ana, as horas sem fim à janela da pensão, suspensa dos horizontes de neve, os passeios solitários pela estrada entre pinheiros (não queria que o marido a acompanhasse «e eu, é claro, submeto-me sempre às suas ordens»). Depois foram para a Rocha, mas sem passarem por Lisboa nem por Évora. Aí recomeçou a sua meditação. Vagueava pela praia, às vezes mesmo de noite, sentava-se nas falésias, ouvindo o mar. «Eu dizia-lhe: - Aninhas, não precisas de nada? Sentes-te doente? E ela só me respondia: - Deixa-me.»
- Até que apareceu o Chico. Tinha ido ao Algarve em serviço e passou pela Rocha. Mas desta vez achou-se ao engano: a Aninhas mandou-o bugiar.
Olhei o bom Alfredo: ria largamente com o seu riso oco, como de um desdentado, a bochechinha vermelha. Tenho a certeza de que jamais Chico interessou a Ana. Alfredo sabia-o possivelmente também. Mas uma hipótese contrária parecia dar-lhe prazer - o velho prazer da humilhação. Mas teria Chico ilusões? Talvez: Alfredo era um convite a isso, até porque parecia admiti-lo e quase aceitá-lo. Mas tu, Ana, eras tão grande, tão bela na tua vigorosa afirmação, que é estranho ter Chico imaginado sobre ti o que não eras. Chico? Não o terei eu imaginado, não bem, embora, sob a forma de «traição» da tua parte, mas de uma forma clara e humana de «comunhão» comigo?
Era evidente que Ana sofria de uma «crise». Gostava de estar com ela, Ana sabe as palavras do abismo..."


Vergílio Ferreira, Aparição, Lisboa, Bertrand, 1996 (1ª ed. 1959).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Corpo e Palavra

A leitura é sedutora, e a escrita ainda mais. É exaltante. Mas não só a palavra escrita é criadora, também a voz cria mundo; ambas acendem a chama da vida e da esperança, avivam o corpo.
Neste dia tão cansativo, cinco testes depois, só estas imagens e palavras  inesperadas para lavar a alma:



Peter Greenaway



Jean-Luc Godard


(Este último vídeo estava em Escrever é Triste, excelente blogue, com um excelente título.)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Da necessidade da literatura

Italo Calvino deixou-nos seis (cinco) propostas para o próximo milénio, lidas pela primeira vez em 1992. Muitas das ideias então acolhidas afluem ao pensamento da leitora nas mais variadas ocasiões. Hoje lembrou-se insistentemente de duas passagens da conferência intitulada "Exactidão":

"Às vezes parece-me que uma epidemia pestífera atingiu a humanidade na faculdade que mais a caracteriza, ou seja, o uso da palavra, uma peste da linguagem que se manifesta como perda de força cognitiva e de imediatismo, como um automatismo com a tendência para nivelar a expressão nas fórmulas mais genéricas, anónimas e abstractas, para diluir os significados, para embotar os pontos expressivos, para apagar toda a centelha que crepite do encontro das palavras com novas circunstâncias.
Não me interessa aqui interrogar-me se as origens desta epidemia se devem procurar na política, na ideologia, na uniformidade burocrática, na homogeneização dos mass-media, na difusão académica da cultura média. O que me interessa são as possibilidades de salvação. A literatura (e talvez apenas a literatura) pode criar anticorpos que combatam a expansão da peste da linguagem."  (p. 74)

"[...] penso que andamos sempre à caça de alguma coisa oculta ou pelo menos potencial ou hipotética, de que seguimos as marcas que afloram à superfície do solo. Creio que os nossos mecanismos mentais elementares se repetem desde o Paleolítico dos nossos antepassados que caçavam e apanhavam frutos através de todas as culturas da história humana. A palavra liga a marca visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil ponte improvidada sobre o abismo.
Por isso o uso correcto da linguagem para mim é o que permite aproximar-nos das coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, respeitando o que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam entre si. (p. 94) 


Italo Calvino, Seis Propostas para o Próximo Milénio, Lisboa, Teorema, s.d.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Oferecer livros



Vista aérea da Biblioteca de Alexandria 
(fotografia retirada do site oficial)

Em qualquer momento se oferecem livros, mas a época natalícia é especialmente indicada para se presentarem os amigos com estes fantásticos objectos. Todos os leitores o fazem.

Há leitores, todavia, que vão mais longe, e decidem dar os volumes que já não cabem nas suas estantes também às bibliotecas escolares. É um gesto de cultura e de amor aos livros que deve ser reconhecido, pois enriquece aquelas bibliotecas e os seus frequentadores, jovens leitores, a crescer, a abrir horizontes, a aprofundar raízes...

Hoje a generosa oferta foi de G.

Amanhã? Quem os lerá? Quem os multiplicará?

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

É Natal


A todos os leitores deste blogue, um Feliz Natal e um Ano Novo cheinho de Alegria!



John Melhuish Strudwick,
Madonna and Child with attendant Angels


"- Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe em soluços:
- Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia e curta é a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança mumurou:
- Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
- Aqui estou."

Eça de Queirós, "Suave milagre" in Contos, Porto, Anagrama, s.d. (colecção Clássicos Anagrama- 22) 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Olhar de leitura


(Imagem retirada de A Livreira Anarquista)

Há textos que fazem bem ao ego das Leitoras, como este, encontrado no blogue O Jardim Assombrado:

Namora uma rapariga que lê

"Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.

Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.

Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.

Oferece-lhe outra chávena de café com leite.

Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido o Ulisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.

Ela tem de arriscar, de alguma maneira.

Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.

Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.

Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.

Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.

Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.

Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.

Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.

Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve."

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)

[Este texto já tinha sido lido nesta sala.]

Um livro nunca acaba



(Retirado da internet)


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ler com muito gosto

Ler os poetas, amar as palavras: António Nobre, Camilo Pessanha, Ruy Belo, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade...

Interessante depoimento de Paula Morão sobre a leitura, e em especial sobre a leitura em voz alta, no PNL TV (Plano Nacional de Leitura):

http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/pnltv/index.php?idVideo=52

sábado, 10 de setembro de 2011

A Estátua de Leitura

Ana ensinando a ler a Myriam ou A Estátua de Leitura

(Imagem retirada do blogue Espaço Llansol)
  
"Ali, arde a substância onde Ana está ensinando a ler a Myriam, Ana sentada numa cadeira, com o livro aberto no colo, Myriam de pé, a olhar um dos primeiros textos, "que é um cavalo que vai saltar". Está sendo beijada na boca pelas letras, e inclina a cabeça para trás, pois a seta da clemência atravessou-lhe o vestido. "Quem for clemente, lê". Se a linguagem, segundo diz Ana, for aprendida pela visão, ela, no fim, tirará da estante ardente a chave da leitura, e metê-la-á no bolso de Myriam."

Maria Gabriela Llansol, um beijo dado mais tarde, Lisboa, Rolim,1990.


Foi este o primeiro livro lido. Levou-o consigo para Casa  e, desde então, a sua estante guarda um lugar para os livros, ardentes, de Maria Gabriela Llansol.

Amar os livros

Hoje lê-se um ensaio luminoso e esclarecedor de Paula Morão: "A leitura - Cidadãos e peso, obrigação e prazer". Um excerto:

"[...]
Na mesma direcção se situa o primeiro fragmento d' "O livro", a abrir A Invenção do dia claro, que Almada Negreiros publicou m 1921; sigamo-lo:

Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve certamente haver outras formas de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

Anote-se o carácter salvífico do livro e da leitura, espécie de condenação feliz, tarefa jubilosa de uma vida inteira. A livraria - e a biblioteca (acrescentamos nós) - configura-se como um limbo a caminho do paraíso: a multidão de livros salva ou condena, mas seja como for ocupa toda a duração de uma vida, como uma actividade constante. Para além da ironia deste fragmento, podemos vislumbrar aqui uma concepção de leitor, como aquele cujo percurso vital é marginado por livros da mais variada índole e de variegadas funções, desde a companhia à aprendizagem de um qualquer saber, desde a descoberta do Outro à confirmação do mundo que já se conhece e à abertura a mundos imaginários, ou a mundos outros, utópicos, com os quais os escritores e os artistas constroem alternativas ao real, sonhando-o diferente e melhor. Por isso são tão atraentes os livros de ficção que falam de mundos muito diversos daquele que nos é familiar - pense-se por exemplo no encanto das epopeias, dos heróis carismáticos com que sonhamos por neles nos reconhecermos; ou pense-se nos romances de aventuras passadas em cenários que temos de inventar e modelar diante dos nossos olhos universos que ultrapassam o que nos é familiar. Eis aqui, precisamente, uma das principais funções do livro e em especial da literatura (mas também do livro científico), a de estimular a imaginação, criando cada leitor, em suplemento ao que lê, figuras e cenários. Daí que muitas vezes seja decepcionante ver, em adaptações para cinema ou outras formas artísticas, as nossas personagens incarnadas por actores muito diferentes do que tínhamos imaginado - é este o Rei Artur?, é este o rosto de Heathcliff, de Orlando, de Camões, de D'Artagnan, de Guinevere, de Natacha Rostova, de Tadzio? É esta a figura de Carlos da Maia, é este o inspector Elias com seu lagarto Lizardo, é este Aquiles, é este Ulisses? É este o vulto de Pessoa, é esta a sua voz?
Cada um multiplicará os exemplos em função da sua enciclopédia e da sua memória pessoal. O que quero sugerir é que personagens e cenários como os que aqui evoco são parte do que o leitor-pessoa que eu sou se foi fazendo, ao longo dos anos que cada sujeito leva de amador de livros, neles criando mundo e se constituindo como ser pensante e como cidadão do mundo. Falo de um leitor que incorpora e faz seu um conjunto de personagens que vive como suas, que decorrem naturalmente da sua vida, a moldam e lhe dão sentido, surgindo nas suas frases como entes familiares. Falo de um leitor espesso, de um leitor com uma memória tecida de seres de papel e "das emoções linguísticas" (como lhes chama Gastão Cruz), falo, em suma, daquele leitor que nem tem consciência de carregar consigo e dentro de si uma tradição, uma linhagem que lhe definem o retrato bem desenhado. [...]"

[Nesta citação, omitiram-se as notas presentes no texto]

Paula Morão, "A Leitura - Cidadãos e pessoas, obrigação e prazer" in O Secreto e o Real: Ensaios sobre Literatura Portuguesa, Lisboa, Campo da Comunicação, 2011.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dos diários e assim

"Este diário da Índia, embora a ela evidentemente se refira por diversas vezes e de diversas formas, foi, na altura em que lá vivia, um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso, e de procurar enraizar-me através de leituras, livros e recordações, noutras paisagens e gentes. Uma forma avulsa de me reencontrar.
Quantas vezes a elaboração de um diário não nos oferece a possibilidade de embarcarmos para outras paragens...?"

Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006.


Por que se escrevem diários? Porquê manter este diário de leituras? Qual a origem da compulsão da escrita diarística?

Estas perguntas são de difícil resposta e requerem leituras, pois que de um género de escrita complexo se trata. No entanto, fiquemo-nos por uma reflexão impressionista, mais ajustada à canícula recém-chegada.
Se atendermos às palavras de Marcello Duarte Mathias, um diário é uma forma de evasão - "possibilidade de embarcarmos para outras paragens" - e de enraizamento noutra paisagem - "outras paisagens e gentes"-,  através de "leituras, livros e recordações". Recorremos, então, ao papel ou ao rectângulo branco para nos libertarmos do mal-estar quotidiano ("um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso"), achando morada no território dos afectos, novo e antigo. Assim, recolhemos fragmentos vários, palavras, imagens, sons, com a intenção de criarmos uma paisagem a habitar, por nós e por outros. Sim, por outros, pois que os diários aqui lembrados não se escondem na gaveta, antes se oferecem aos mais diversos e incertos olhares.
Nesta terra oscilante, somos o espelho, o rosto e o retratista, que move a cabeça com as mãos, buscando a melhor pose: com inclinação, sem inclinação, de perfil mais ou menos pronunciado, à medida da velatura desejada... A nomeação faz-se por meio de perífrases, palavras compostas, pronomes vários, muitas vezes na terceira pessoa, também há quem recorra a letras maiúsculas seguidas de pontinho. Não raro, convocam-se máscaras sugestivas da face oculta. Estratégias para esconder e revelar a identidade. Quem escreve, afinal, é e não é aquele que se toma por autor. O diarista, afinal, quer criar o novo feliz, mas reunindo o vivido (lido). O diarista, afinal, é um colector, que quer voar, mas levando nas asas todo o mundo conhecido. Quem escreve, afinal, procura-se a si e ao outro...
... Afinal?
E, então, quando o diarista tem a compulsão de APAGAR tudo (quase tudo...) o que escreve/coloca no blogue, no diário? Vê-se que o diálogo é constante, não só com o mundo das palavras, mas também com os leitores do dito blogue-apagando-se, que, nota-se, comentam de viva voz o que vai surgindo e servem tanto de interlocutores como de inspiradores. Talvez seja isso: o centramento no presente! Mas... Todos os diários se centram no presente, ou não?
A verdade é que esta leitora, armada em diarista, não sabe o que é um diário, não sabe por que razão mantém este blogue ( não quererá saber bem...), o que sabe é que gosta de escrever estas entradas e das respostas que lhe vão chegando. Descobriu sobre si que é uma colectora, por isso não entende Jocardo / Peribiblio, com a sua ânsia de apagar!

sábado, 6 de agosto de 2011

Leitora-Colectora / O encanto das ruínas

"Colector /ô/ adj.s.m. (1375 cf. IVPM) 1 que ou aquele que colecta, que reúne. que faz compilação [...]  ETIM lat. collector, oris, do rad. de collectum, supn. de colligere 'reunir, juntar, apanhar" - Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores: 2007)

No blogue de Ana Vidigal, aqui ao lado, recolheu a leitora o vídeo que abaixo apresenta. O blogue e a obra da artista constiuem um lugar a visitar regularmente. Descoberta tardia, só aquando da exposição na Gulbenkian, o conjunto da obra foi uma espaço de acolhimento para Ela. Um dia gostaria de ler e escrever sobre a colcha feita de cartas, sobre as colagens, sobre a reunião de tantos objectos e fragmentos tão significativos e inquietantes, pela banalidade de que parecem provir e antes pelo contrário... O reconhecimento e a estranheza. O impacto foi grande e continua a ser. 




O Encanto das Ruínas

Acompanhar a câmara através desta casa em ruínas é um passeio belíssimo! As paredes, com restos de tinta e de estuque, os azulejos, o ausente telhado, vestígios de uma vida, as pedras. O que não é, mas existe no movimento do olhar, que adivinha o possível e corre com a erva, plantada a esmo pelo tempo. Quartos esventrados, corredores ao abandono, salas de estar ocupadas pelo sol. Portas, arcadas, escadas para nenhures. Apetece mesmo correr para a praia aqui ao lado e voltar para casa!



segunda-feira, 18 de julho de 2011

Para meditar:

O professor de Português e a leitura

Chegou hoje um livro fundamental sobre a leitura e a literatura portuguesa, a ler demoradamente, nos dias quentes que se aguardam. Aqui fica um apontamento para meditação:


"A responsabilidade do professor de Português exige que ele seja um profissional informado (quer dizer, que sabe muito mais do que aquilo que utiliza e mostra no seu trabalho quotidiano de docência) e entusiasmado (quer dizer, desenvolvendo em si próprio e nos seus alunos a capacidade de aprender com alma, com alegria). Por isso mesmo, o professor de Português não pode limitar-se a glosar os manuais e os livros do professor que os acompanham, nem a transmitir aos seus alunos, mas em versão reduzida, conhecimentos adquiridos ao longo do seu processo de formação. Lendo os ensaístas e os críticos como Eduardo Lourenço, e continuando a lê-los ao longo do nosso percurso de professores, tornar-se-á evidente que o saber que da leitura nos vem constitui uma actividade vital. E que ler poesia é estar apto a pensar-nos no mundo, é, em suma, viver melhor - porque, como aprendemos com Eduardo Lourenço, a poesia é a realidade, enigmática e luminescente como a Esfinge ou como a face de um antigo deus."


Paula Morão, "A Poesia como Realidade - Eduardo Lourenço e o Ensino do Português" in O Secreto e o Real: Ensaios sobre Literatura Portuguesa; Lisboa, Campo da Comunicação, 2011, p. 40.

Das leituras escolares obrigatórias

A propósito da ausência de Camilo no currículo escolar  (de Camilo Castelo Branco, entenda-se, que do outro, Camilo Pessanha, quase todos se esquecem), escreveu esta leitora:


 Todos temos crenças sobre as leituras escolares e as consequências das obrigações implicadas. Diz-se que o dever impede a criação de leitores daquele autor clássico lido a contragosto, muitas vezes sob a forma de resumo...
Ora, se esta ideia será visível em certos casos, noutros é exactamente ao contrário. Há quem tenha gostado muito de Herculano, nos seus dezasseis, dezassete anos, e não tenha gostado nada de Cesário, por exemplo, e que, mais tarde, se tenha tornado leitora de ambos, especialmente do último. Na minha perspectiva, o que condiciona indelevelmente o futuro é a ignorância e a insistência nela, em nome do prazer (na sua dimensão lúdica, apenas) ou do útil. Assim, ainda mais chocante que a ausência de Camilo nos programas de Português é a rasura da poesia trovadoresca, de muitos dos clássicos da nossa literatura e a indefinição quanto à poesia do século XX, a que alguns chamaram o século de ouro da poesia portuguesa. E todo este silenciamento para quê? Para se introduzirem os textos utilitários, tais como requerimentos, regulamentos e quejandos?
[...]

quarta-feira, 25 de maio de 2011

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Discussões inúteis ou não


Fala-se, diz-se, ouve-se discutir o fim dos livros, ora com o calor de quem perde uma confortável poltrona antiga, ora com a bonomia de quem se sabe já contemporâneo do futuro. Esta disputa provoca-me sempre algum enfado, não obstante a actualidade e a pertinência do tema; nesses momentos ocorrem-me ecos de encaloradas discussões sobre a qualidade do golo ou do passe do Ronaldo, sobre a frescura da couve ou do repolho, sobre o preenchimento exacto do modelo 31. Palavras soltas, que tão pouco dizem.
Afigura-se-me que o fim do livro não é uma realidade que possa vir a existir. Haverá lugar para o ipad e quejandos, mas também para outras formas de acedermos à palavra, mais corpóreas. Qual será a metamorfose da leitura, não o sei dizer; a minha certeza é apenas esta: a palavra continuará a interpelar-nos, corpo e alma, espírito e matéria, e será, por vezes terá de ser, irrecusável.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Mulheres que lêem são perigosas

Eve Arnold, Marilyn lendo Ulisses, 1952

Deparei-me, no Facebook, com este interessante texto sobre as mulheres e a leitura: "Namora uma rapariga que lê". Recordei-me, então, de um livro lido há tempos - Stefan Bollmann, Mulheres que Lêem são Perigosas, Quetzal Editores (constituído por prefácio de Elke Heidenreich  - "Pequenas moscas!" -, introdução de Stefan Bollmann - "Mulheres que lêem" - e vários retratos de leitoras, seguidos de um texto de uma página). Já nessa altura me interroguei sobre as implicações do adjectivo "perigosas": Que perigo carregam? Contra quem? O que têm de assinalável estas mulheres? O que as instituí como grupo?
Em qualquer dos textos, livro e entrada de blogue, se reconhece a importância da leitura para a liberdade e para a constituição de uma identidade singular. Residirá nessa possibilidade de aceder a um "lugar que seja seu" o estranhamento de uma mulher leitora? Estará o perigo na evidência da liberdade individual, construída no recolhimento e, simultaneamente, na abertura ao Outro, implicados no acto de ler?  
Tantas interrogações. Afigura-se-me que tanto a leitura como os seus cultores partilham de um qualquer mistério perturbador. Quando qualificam uma parte desses amantes da palavra como "perigosa" - mulheres que lêem são perigosas -, estarão a evocar antigos mitos femininos, atraentes ou repulsivos, ambivalentes sempre? Afinal, parece que esse ancestral feminino ainda persiste, com os seus contornos de milénios, a acordar medos, a chamar seduções. (Será?!...)

sábado, 27 de novembro de 2010

A leitura e a liberdade

No Verão passado, Alberto Manguel deu uma interessante entrevista ao jornal Público, em que se evidencia o seu lúcido olhar sobre o nosso tempo. Apresento alguns excertos dessa conversa:


Alberto Manguel
“Estamos a destruir o valor do acto intelectual”, Ipsilon (suplemento do Público), 2 de Julho de 2010, pp. 30-33. Entrevista de Ana Gerschenfeld.

[O acto intelectual]


“Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual.”

[As novas tecnologias e a leitura]
“ […] O problema não está na invenção de novos suportes para a leitura. Surge quando esses suportes são promovidos por razões puramente económicas e nos tentam convencer a substituirmos tudo por esse único suporte.”

“O problema com a Internet é que nos dá a ilusão de possuirmos toda a informação que contém. Mas o facto de essa informação existir não significa que seja nossa. Temos de saber procurá-la, saber se é fiável ou não, saber utilizar as associações que fazemos. Podemos brincar com a Internet dias a fio, à procura de anedotas, de bocados de informação recôndita, etc. É óptimo, mas tem de haver uma actividade mental capaz de incorporar, destilar, recriar essa informação. Ora, um dos grandes problemas actuais dos bibliotecários é que os jovens que chegam às bibliotecas, e que estão habituados a utilizar a Internet para fazer uma espécie de colagem da informação, não sabem ler. Não sabem percorrer um texto para extrair aquilo que precisam, repensá-lo, dizê-lo com as suas próprias palavras, comentá-lo, associá-lo ou resumi-lo – e sobretudo, memorizá-lo –, actividades que fazem parte da leitura enquanto acto criativo. Estão habituados à ideia de que, como isso está lá e está acessível, já é deles. Não é assim.”

[A culpa é da escola ou da Internet?]
“A escola não tem culpa, é a nossa sociedade que é culpada. A escola, a universidade, deveriam ser o lugar onde a imaginação tem campo livre, onde se aprende a pensar, a reflectir, sem qualquer meta. Mas isso é algo que estamos a eliminar em todo o mundo. Estamos a transformar os centros de ensino em centros de treino. Estamos a criar escravos. Somos a primeira sociedade que entrega os seus filhos à escravidão, sem qualquer sentimento de culpa.
Nesses centros de aprendizagem, estamos a criar seres humanos que não confiam nas suas próprias capacidades e que começam a acreditar que o seu objectivo na vida é arranjar trabalho para conseguir sobreviver até chegar à reforma – que também já lhes estão a tirar. O que estamos a fazer é horrível.
Não tem nada a ver com os valores da Internet, com a competência do professor, faz tudo parte de um conjunto. Somos culpados enquanto sociedade.”

[Sobre o conhecimento/leitura de certos livros, que antes se deveria ter lido]
“A questão é que deixámos cair a noção de “ser culto”. Agora, não passa pela cabeça de ninguém dizer que uma pessoa é culta ou não é culta. Como já disse, há uma perda de prestígio do acto intelectual. Hoje, uma pessoa pode admitir que é estúpida, que passa o seu tempo a jogar jogos de vídeo ou que só se interessa pela moda. Não vai chocar ninguém. Antes, tínhamos vergonha de dizer coisas dessas, mas hoje é espantoso ver o número de pessoas adultas que jogam jogos totalmente imbecis.”

[Os clássicos]
[…] Os grandes clássicos não foram escolhidos por ninguém; não há um comité que decide que Homero é importante. O que houve foram gerações de leitores que disseram que esse livro é importante. É isso que define o clássico, é a obra que não se esgota junto dos seus leitores. E isso continua a ser importante, embora muitos leitores – e muita gente – não o reconheçam.
As crianças têm uma imaginação activa, uma inteligência activa. Querem aprender a pensar. Na Idade Média, amarrava-se as crianças ao berço para as imobilizar. Hoje, amarramos a mente das crianças exactamente da mesma forma.”