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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Correspondência

Terminada a leitura de:
António José Saraiva e Luísa Dacosta: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2011 (edição, prefácio e notas de Ernesto Rodrigues).
Este livro constitui o segundo volume do tríptico epistolar de António José Saraiva, tendo sido publicado já o livro António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2004 (selecção, edição, prefácio e notas de Leonor Curado Neves, com a colaboração de Ana Sequeira de Medeiros); o terceiro incluirá as cartas dirigidas a Teresa Rita Lopes. Assinale-se que, se o livro de 2004 reproduz algumas cartas de Óscar Lopes, ainda que em número reduzido, o de 2011 apresenta apenas as cartas de Saraiva, de 22 de Abril de 1961 a 20 de Dezembro de 1965, não sendo, assim, possível a recepção directa das palavras de Luísa Dacosta, continuamente evocadas. Explicação para esta omissão nunca é dada ao leitor, pelo que resta lamentar e esperar por uma eventual edição futura da correspondência de Luísa Dacosta.

As cartas agora lidas têm como vocativo “Minha Amiga”, o que desde logo mostra a relação que unia os dois intelectuais, relação de grande amizade e colaboração, como se evidencia a cada passo da leitura, seja através da discussão de ideias, seja pelas referências a pesquisas que Luísa Dacosta realizava em Portugal a pedido do seu amigo exilado em Paris, seja pelo constante reconhecimento do apoio moral e prático dado pela escritora.
Para além da matéria privada e particular, observam-se nestas cartas as impressões de Saraiva sobre política, literatura, política, filosofia, bem como considerações relativas aos seus trabalhos em curso. Também a crítica aos escritos de Luísa Dacosta publicados, especialmente às suas Notas de Leitura saídas n’O Comércio do Porto, surge em várias missivas, incentivando o intelectual exilado a sua Amiga a continuar. A referência à actividade literária da escritora é escassa, pois esta era igualmente escassa, no que respeita a obras publicadas (o seu primeiro livro, Província, data de 1955; o segundo, Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu, será editado em 1969), todavia citam-se, a propósito, estas passagens significativas: “E como vai a sua actividade literária? Continua a pensar no livro de contos de que em tempos falámos? Dê-me notícias a este respeito.” (p.96); “Agradeço que me tenha enviado (e que continue a enviar-me) a sua prosa de ficção. Creio que o seu caso é o de quem oscila entre o ensaio e a ficção pura, e lembro que a sua originalidade talvez esteja na possibilidade de reunir ambas as virtualidades num só texto. Estarei vendo bem? É por isso que eu a encorajaria a cultivar o modo «impressionista» que tanto me agrada nas suas críticas literárias. Não se deixe tentar pelo «raciocinantismo» (de que não consigo desembaraçar-me). Mantenha nos seus ensaios aquela frescura com que reage e o azul do mar, e até aquele género de prosa que não se embaraça com articulados.” (p. 130)

Esta correspondência constitui, então, um documento de uma época, com as suas vicissitudes políticas, económicas e sociais, estéticas, literárias e filosóficas, na Europa e em Portugal, em geral, e da mundividência do intelectual português exilado, naqueles anos sessenta do século XX. Traz mais um contributo para o retrato de uma geração. No entanto, não é este o único benefício da sua leitura; permite uma compreensão maior da obra de António José Saraiva e da sua personalidade, assim como um vislumbre do estilo e da personalidade de Luísa Dacosta. The last, but not the least,  as cartas agora publicadas revelam a importância da amizade e do diálogo fecundo entre os dois Amigos, como esta passagem deixa perceber: “O seu apoio, de você, Luísa, tem-me sido extraordinariamente bom e estimulante. Mas não maldiga nem lamente o tempo que tem gasto a escrever-me. Eu preciso de uma compreensão que vá além das ideias, porque, como digo ao Óscar, estas não são mais que um revestimento provisório, e que a gente deve sempre estar disposto a mudar de uma atitude vital, dentro da qual deve fazer-se a nossa coerência. Não calcula como lhe estou grato pela sua compreensão (que não quer dizer necessariamente concordância), para além da expressão ideológica de que me revisto.” (p. 96)

A fechar estas notas de leitura, destaque-se um apontamento de António José Saraiva sobre o seu tempo e o papel dos intelectuais na realidade então vivida, pela pertinência que parece ter para os depressivos tempos actuais: "A que ritmo bate o coração português? Sabíamo-lo em 1940; não o sabemos hoje. Tudo tem de ser repensado. E, por isso, talvez o dever mais urgente do intelectual português seja o de pensar seriamente a nova realidade, pensar asceticamente, sem concessões de oportunidade, sem considerações que não sejam as do próprio vigor do pensamento. A época é de transformação e desintegração, e, por isso, também de consciencialização de uma situação nova." (p. 91)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Corpo Recusado - Magnífico livro (aqui, um excerto)

"Exercícios de Imaginação

- Tu, porquê tu?
- E por que não eu? Em que falto eu ao teu sonho?
- Em nada. Só que nunca imaginei haveres de ser tu a doer-me, nem que vinha de tão longe a tua ausência.
- Afinal não para um encontro...
- Bem o sei, contento-me em respirar-te, em saber-te, longe...
- Cada vez mais longe...
- Perto, cada vez mais perto, uma vez que de longe o sabemos.
- Desde sempre?
- Desde sempre...


[...]


- A tua boca sabe a laranja, é um fruto de mil sabores.
- É o teu desejo que tem mil papilas...
- Não, não, é a minha boca que só existe na tua. Só na tua se abre e se sente.
- Por isso sou a tua margem, sem ti não tenho inquietas marés.
- Um dia esquecer-me-ás...
- E como é possível perder um sonho, tecido dia-a-dia?
- O tempo se encarregará de destecê-lo... Um dia virá em que os teus dedos já não saberão o toque breve e frio da minha boca... Um dia virá em que não saberei mais a tua timidez, quase sem gestos... não saberei mais. Ter-te-ei perdido para sempre. Para sempre.
- E quando será esse quando?
- Ambos temos o poder da destruição, um de nós o fará nascer.
- Tu?
- Tu."

Luísa Dacosta, Corpo Recusado, Porto, Figueirinhas, 1985.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vozes amadas - da poesia trovadoresca aos cantares populares

O primeiro poema é uma cantiga de amigo, uma das mais belas; as quadras também cantam o amor e os seus perigos, e desafios, pois então!


Sedia-m'eu na ermida de San Simion
e cercaron-mi as ondas, que grandes son:
     eu atendend'o meu amigo,

     eu atendend'o meu amigo!

Estando na ermida ant'o altar,
(e) cercaron-mi as ondas grandes do mar:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi as ondas, que grandes son,
non ei (i) barqueiro, nen remador:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi as ondas do alto mar,
non ei (i) barqueiro, nen sei remar:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

Non ei i barqueiro, nen remador,
morrerei fremosa no mar maior:

      eu atendend'o meu amigo,
      eu atendend'o meu amigo!
    
Non ei (i) barqueiro, nen sei remar,
morrerei fremosa no alto mar:

      eu atendend'o meu amigo,
      eu atendend'o meu amigo!

Mendinho

Alexandre PInheiro Torres, Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, Porto, Lello & Irmãos Editores, 1987.



Estimo e estimarei,
sentada numa almofada,
a fiar continhas de ouro,
salta cá, minha esposada!


Uma quarta de sabão
pra lavar o coração.
Uma faquinha amarela
para cortar a goela.


O meu amor é José
e eu queria um Joaquim.
Com tanto home no mundo
algum há-de ser pra mim.


(Luísa Dacosta)

sábado, 12 de novembro de 2011

Olhai e vede como se estivésseis presentes

Hipotipose

Uma das mais belas figuras de estilo, ontem relembrada. O E-Dicionário de Termos Literários (Carlos Ceia) define-a assim:

"Descrição entusiástica, dinâmica e animada de uma pessoa, coisa ou acção, em regra ausente no momento da descrição, mas cuja presença é assumida de forma fantástica. Quintiliano prefere designar esta figura como ilustração vívida (Institutio Oratoria, IX, ii, 40-44), atribuindo a Celso a designação grega, que traduziria qualquer representação enérgica de factos, de tal forma que se criaria uma ilusão óptica de realidade. [...]"

Sonho

Com confiança na linguagem e na sua capacidade de nos tornar presentes mundos oníricos, voemos para lá da noite, na companhia de um belo pássaro lunar e destas palavras mágicas:

"Magicamente, o pássaro transformou-se. Deviam ser assim  as aves do paraíso. Eram com certeza. O corpo lunar recolhia, agora, todos os reflexos da luz da manhã clara e devolvia-os numa brita lantejoulada, de arco-íris. E a menina pôs-se a amá-lo tanto que sempre que o seu coração anoitecia entrava no corpo luarento e espelhado e voava pela janela.

Que estranhas eram as noites! E que bom era voar! Não havia limites: tudo era amplo, liberto, sem fim. Espaços ora sombrios e nevoentos, ora floridos de estrelas, sucediam-se num deslumbramento. Aos pontos luminosos da noite, respondiam outros pontos, luminosos, na Terra. Eram as casas, os navios, as cidades dos homens que, vistas assim de cima, pareciam enormes teias de aranha, preciosamente orvalhadas. Os faróis dos carros, os comboios riscando as trevas, semelhavam estrelas cadentes. E a menina aventurava-se cada vez mais e mais. Subia e respirava aquela liberdade única: a do sonho."


Luísa Dacosta, Menina Coração de Pássaro, Porto, Asa, 2002.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Matéria de estrelas

Na companhia das estrelas, e de Luísa Dacosta, vamos pedir um desejo:


"Somos matéria de estrelas, mas uma matéria dolorosa, capaz de sentir e de provocar dor. Tão desamparados! Tão sozinhos! É terrível que não possamos esmagar-nos ou colher-nos, que tenhamos de nos olhar neste silêncio martirizado de criaturas vivas e prisioneiras.
- Estrelas, minhas irmãs, aqueçam o meu coração no bafo do vosso fogo, não o deixem ao desabrigo da noite! E tu, estrelinha cadente, que te desprendeste como uma lágrima de luz, em frente à minha janela, bem podias satisfazer-me um desejo!"


Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1990.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Corpo suspenso

Fechar o dia de bem com a vida, embalada pelo rolar das ondas e pelas palavras de Luísa Dacosta:

"Umas mãos longas, frágeis e inquietas, como raízes fora de terra, arrastadas pelo vento corriam-lhe o rio do corpo. Devagar. Sentia-lhes não o peso, mas a fragilidade quase feminina. Enconchavam-se-lhe nos joelhos e faziam um parapeito, solto e aberto, à flor dos seios. Invenção ou desejo? Devagar recomeçavam. Devagar. A polpa quase liquefeita dos dedos, deslizava ao longo dos braços, das pernas, arrepiando-lhe a carne com um sopro, quente, vago, que bicava a ponta dos mamilos e entumescia o ninho do sexo. Que sugava, como boca sôfrega, todas as papilas da pele, chamando-as a uma sensação táctil, corrida, como que brincada e apenas lúdica.
Se abrisse os olhos tomaria consciência do espaço, do tempo, do lugar, das mãos. Obstinava-se, porém, na quietude dos olhos fechados, prolongando aquela sensação de ter o corpo suspenso sob uma lubrina de desejo. Nenhuma boca viria. A adolescência não seria reinventada. Não haveria promessas de pássaros e madrugada. Subjacente havia essa certeza. Demasiado consciente, tesoura lúcida, a cortar o fio do sonho.
Na cama apenas um corpo. Abria os olhos à manhã que clareava, que tornava mais caiado o branco das paredes e a fechava no búzio do quarto.
O rolar das ondas trazia até ali um choro do solidão."


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1980.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Esplendor da língua VII

Ainda ao espelho, outro momento...


"[...] E olhou-se longamente, o corpo lunar, ligado ainda a uma flexibilidade de junco – haste solitária na água do espelho. Apelando a quê? Aos desejos que aquele beijo tinha acendido e ela quisera que tivesse pertencido a outro, ao desconhecido, que se espera e fantasia, para libertá-la daqueles sopros de incesto? Ficaria a sua imagem presa no espelho? Quem a encontraria para lá do tempo? Quem para adivinhar o peso dos seus cabelos negros, presos nos ganchos de tartaruga? Aquela trança a cingir-lhe o rosto, como um diadema negro? O voo, inquieto, das sobrancelhas, desenhadas a pincel? Aquele luar de seda e camélia do seu corpo, quem viria sabê-lo?
[...]
Para além da janela, a noite eram braçadas de luz, de imensas constelações sem nome que não podia abarcar, embora desejasse incorporá-las a si. Fechou as portadas de madeira, tentando ensurdecer o perfume da laranjeira e, exausta, deitou-se sobre a cama. Desejava uns lábios que a percorressem, lhe bebessem a boca e o sexo, lhe fossem manto de ternura, sobre a pele. Desejava umas mãos que lhe desenhassem a linha do corpo, lhe corressem os flancos, quebrados, e a cingissem, fortes. Desejava um rosto que se lhe afogasse entre as magnólias dos seios, que a procurasse e lhe fizesse nascer pássaros no sangue e apagasse aquela violação do marido, que não a conhecera, lhe não soubera o corpo, que se cevara, brutal, no próprio desejo, saciando-se rapidamente e afastando-se dela, depois de lhe ter acendido anseios que agora não controlava. Sentia dentro de si uma pulsão, sequiosa, de água, a abrir-lhe a anémona do sexo em pétalas carnudas e vorazes, um desejo de potro jovem, incontentado, um sangue selvagem de astros que ceifavam a noite, a fogo...
O seu corpo nu era uma haste latejante, que se oferecia, caída na solidão de caminhos, que não viriam a ser cruzados.
Coração de romã, o desejo crepitava no silêncio e na ausência.

 [...] O silêncio parecia acumular-se como uma poeira sobre tudo, em camadas. Sentia-se afogada naquela quietude, como num mar, e os cabelos, que a trança cingia, era como se estivessem soltos e flutuassem na ausência de sons, algas numa corrente marinha. A sensação era tão opressiva como se fosse realmente a afogar-se, perder-se em águas insondadas, respirando pela última vez, sabendo-se a descer, impossivelmente, a uma profundidade irremediável que a ia submergir. Sentia que se afogava na própria solidão, ao mesmo tempo que um desejo, que espiava essa solidão, crescia dentro dela, tomando-a, desde a raiz do sexo à vibratilidade dos nervos."


Luísa Dacosta, O Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, Lisboa, Quimera, 2000, pp. 48-50 e 56.

Que beleza!
Mergulhar e ser feliz.

domingo, 11 de setembro de 2011

O Esplendor da língua VI

Constantin Brancusi, A Musa Adormecida (1910)


Hoje, ver e ver-se:

"Mulher diante do Espelho

[...] A vida retirava-se dela... Até o seu corpo a tinha abandonado, como um rio cujas nascentes se tivessem exaurido. Concha morta, onde a sua alma se debatia, agitadamente, como uma borboleta ou uma ave prisioneira, cega e exausta. O seu corpo! Tão de seda ainda... e já uma arquitectura de água, a esgarçar-se no vento. As faces não já de maçã de pardo lindo. Os lábios desmaiados, não fita de escarlate. Os mamilos dos seios sem a rijeza da cereja bical, frutos passados a emurchecer. O ventre outrora lago de águas lisas, pragueado, como se a pedrada do umbigo o enrugasse em ondinhas, sobrantes. O sexo não já ameixa, madura e sumarenta, o ninho negro e crespo a acinzar-se, a rarefazer-se. Só as pernas conservavam o desenho, firme, de colunas, mas nas junturas, e também nas dos braços, a pele fazia pequenas bolsas, como borracha de balão de menino, muito soprado. As mãos, ainda entre pétala e asa, manchadas já de flor de cemitério. Um corpo não apenas morto para o desejo, mas sem impulsos de vida e de exuberância que, antigamente, a faziam correr, escalar os cimos, para ganhar horizontes e amplidão, meter-se no rio ou no mar, como se a placenta da água a revigorasse, sacudindo-se como um cachorro feliz. Já não corria, andava apenas, ainda não arrastadamente, mas talvez em breve... Não dançava sozinha, não trauteava, súbito, uma melodia, o corpo cumpria somente funções vegatativas. Era, agora, apenas uma cabeça, uma cabeça-fruto, como a da musa adormecida de Brancusi, caída, sem corpo (finalmente sem corpo) fora do tempo. [...]

[...] Essa era a realidade que tinha diante dos olhos. Sem anestesia. E a do seu próprio rosto no espelho. Na esmaecida flacidez mate, só reconhecia o voo negro, como que desenhado a pincel, das sobrancelhas. Que difícil durar para além da beleza! Onde estava o rosto de sibila délfica que Miguel Ângelo tinha, premonitoriamente, fixado? Perdido. E para sempre, "porque toda a carne é como erva e toda a sua glória como flor d'erva, erva que seca e flor que cai".

 [Excertos do Prefácio]

Luísa Dacosta, O Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, Lisboa, Quimera, 2000. 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Dizer Poesia

Esta semana, a Andante Associação Artística apresentou um poema de Luísa Dacosta, no seu desafio poético semanal "Poema escrito por Quem?":

Entardecer





Já não há perfumes de vida na taça do meu sexo.
Se quisesses conhecer, agora, o meu sabor mais íntimo,
terias de beber, com os teus lábios,
a água das minhas lágrimas.



LUÍSA DACOSTA
A maresia e o sargaço dos dias
Ed. Asa

voz - Cristina Paiva

sonoplastia - Fernando Ladeira

(Ver aqui)


A Andante desenvolve uma acção interessantíssima em prol da divulgação da poesia, que pode ser acompanhada através da sua página.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

De como as palavras libertam

Para R., que o encontrou tão desalentado:

"A língua é um instrumento polifónico e criativo, um corpo vivo, não dicionarizado e de museu. Está sempre a nascer, cheia de surpresas e de rebentos seivosos. Experimentam-se vogais e consoantes como quem experimenta uma gaitinha de beiços, como quem trinca um limão ácido."

Laura Castro (coord.), Luisa Dacosta: Entre Sílabas de Luz [Pequena Fotobiografia], Porto, Edições Asa, 2002.

Amada Língua Portuguesa

Dois poemas de Luísa Dacosta e uma pintura de Marc Chagall


Marc Chagall, Cântico dos Cânticos


O TU E O EU NA PAISAGEM

Não é o restolhar do vento.
É a tua lembrança
que se ergue em mim.

Não é a rosa do sol a esfolhar-se.
É a minha boca - sede e romã -
que sangra na tarde.

Não é a noite que desce.
É a sombra dos teus olhos
a fechar o horizonte.



NÃO FOI ESTE O TEMPO

Não foi este o tempo para o amor
e agora é tarde,
abandona-me o espírito da vida.

Deixo-te os meus lábios
e a frescura, salina, da minha boca
– anémona dos jardins submersos.
A linha de seda do meu corpo
para o teu cansaço.
A água das minhas mãos
– pétala e asa no teu rosto.
Lembra-te.

Fora do espaço, do tempo e da circunstancialidade,
com o meu silêncio, labiríntico e recôndito
– enigma a decifrar...
Espero-te.

E amar-te-ei, antropofagicamente, como promete a Língua,
já que o eu se abre para te acolher,
os meus braços, fechados em X,
sobre o teu ímpeto e o teu desejo.
Procura-me.


Luísa Dacosta, A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto, Edições Asa, 2002.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Olhares sobre a cidade

"Fins de Dezembro
S. Pedro de Alcântara


O vento de Dezembro varre as folhas e arrepia a superfície, verde, do lago. Ninguém nos bancos. Nem sequer um par de namorados. As pombas debicam o emparedado, na esperança de um grão esquecido. As árvores, já de ramos nus, vestem-se de asas, mudas, que não arrulham e lembram hieráticos, sinistros, papagaios para um filme de terror, a preto e branco.
Ouve-se cair a hora solitária do Carmo e o som esvai-se, largamente, na água clara do céu.
Em frente, a cidade ondula e como que respira na crueza da luz que treme nas manchas sobretudo claras, algumas recentes, sem a marca do tempo. O calcário ossificado de S. Vicente de Fora, o castelo, as ruínas do Carmo, cavername, ao léu, de um barco a apodrecer à vista de água, referenciam o velho dos telhados, o ocre, o verdete pombalino das janelas e varandas da Baixa, onde São Domingos já sem as implorações amordaçadas pela Inquisição, se perde, apenas antiga e recoberta de preces outras, quotidianas. A cidade respira e ondula. E a ondulação torna-se abrupta e mais nítida na colina muralhada do castelo que deixa cair os telhados ao rés do Tejo – onde a Sé faz uma espécie de portal de janela ao olhar que aí se apoia, antes de se abrir ao azul espraiado.
Dois navios fixam o longe, promessa feita de fumos esgarçados da Outra Banda.
Sozinha – uma mulher olha."

 
Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005.

sábado, 30 de abril de 2011

Leituras de sábado: Luísa Dacosta e Herberto Helder

Busca

Procuro a palavra,
a de sílabas de luz,
que inteira nos revelaria.
Impossivelmente, busco
a nunca encontrada.
Embrionária e prisioneira,
dorme para todo o sempre
no seu ovo de silêncio.

Luísa Dacosta, A Maresia e o Sargaço dos Dias


Claro, considerávamos importantes essas palavras da linguagem, essas palavras comuns. Excitadas como matilhas, boas para caçar, farejar, ladrar, matar. Mas há outra língua, que falávamos antes de nascer. Uma língua muito antiga, não servia para nada, não era  a língua do comércio com os homens. Não era decerto uma língua de sedução, para subornar ou para dominar. Dela provinham as palavras, estas palavras: fluídos, vento, bilha, órfã, carris, dormir, coração, constelada, cisne, lasciate, vapor, contorno, opala, vem... Existiam ao mesmo tempo que a vida, não desligadas dela. Eram uma dança, uma natação, um voo, eram movimento.

Herberto Helder, Magias


- O coração -

(Stefan Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.» 
Herberto Helder, Magias


quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Esplendor da Língua III

Luísa Dacosta - entre memórias e afectos

"Não foste tu a lançar a aliança de oiro, rito que devia garantir-me felicidade para todo o sempre, na água do meu primeiro banho. Já então estavas morta. Fechada na bruma doutras idades. Eras menos que o impalpável perfume que desprendiam teus leques, tuas ligas, tuas enáguas.
Teus dias, longos, presos no fio de intermináveis e complicados bordados? Tuas noites, viúvas, afogadas em jaculatórias? Teus anseios? Tuas revoltas? Tuas penas? Tuas sufocações? Dissolvidas. Pólen, levado pelo vento dos anos. Apenas teu rosto sereno, sobrevivente e morto, olhava com doçura, ferida e dolorosa, o meu rosto que era o teu rosto, a minha boca que era a tua boca, as minhas mãos que eram as tuas mãos.
Ninguém te amou, assim, com a certeza do impossível e do irremediável e tentando, apesar disso, adivinhar-te, recriar teus gestos. A pétala dos teus lábios, porém, não tinha ficado na porcelana rosada e violeta da chávena antiga. A bolsinha com as tuas iniciais A. P. delicadamente bordada pelo salzinho, miúdo, da missanga, flácido coração, esvaído de pulsações, não do peso da melancolia, que ainda se afundava na minha palma, que alvoroços fechara? Memória doutras memórias, vinhas até mim, como balada de que se conhece a música, mas não as palavras. No teu espelho me mirava, com teus ganchos, tuas jóias: os olhinhos-gatos de topázio, a barrette, orvalhada de perolazinhas, o cordão que em voltas de gargantilha, singela, te garrotava o vestido sem enfeites. Mas outras eram as águas do tempo. Só a trama da amargura foi a mesma para ambas. E eu já não tinha os altos muros da quinta para emparedar meus desenganos. E nunca tive o teu regaço para os meus sonos de esquecimento, nunca a tua respiração para bafejar meu tremor, nunca teus dedos para desenguiçar minhas mágoas e meus cabelos.
Em vão te desejei, te sonhei nas trevas. Não vinhas. Limos de distância te impediam, te enleavam, ó diáfana, ó remota, ó para sempre perdida!"

Luísa Dacosta, Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu, Porto, Figueirinhas, 1983, pp. 9-10.

O Esplendor da Língua II

Leituras de quando o sol regressa - Luísa Dacosta - entre memórias e afectos:

"1980
Janeiro, Matosinhos

Os malmequeres tinham os olhinhos abertos a furador e as pétalas de um cheio alto, minuciosamente, pespontado à volta. As rosas? De um coração de crivo, muito trabalhado, partia um recorte fino e sinuoso, preenchido a barras de cheio baixo que um ponto arrastado sublinhava. Nas folhas de pé cheio e bainhas assimétricas, o bordado era ainda mais requintado: uma trama axadrezada e ziguezagueante de pontos sobrepostos. Malmequeres e rosas formavam duas hastes entrelaçadas, como mãos que quisessem colher um rosto, e rodeavam um L - de Letícia? de Luz? de Luísa? A letra era almofadada e o crivo entalhava-se-lhe no corpo e na volta, que terminava em volutas, texturadas e nosinhos minúsculos. Uma bainha aberta, larga, geometrizada a bastidor, e quase musical, fazia-lhe uma moldura, nos cantos rematada por um florescer de pétalas, como que colhidas em frágil teia de aranha. 
Quando aquele bordado passasse para uma gaveta das filhas, sentiriam quanto era cheio de lágrimas represadas, de frustrações e anseios pisados? Talvez invejassem apenas aquele tempo de ritmo lento, não estilhaçado por empregos e transportes, em que havia tempo para bordar. Mas a ela, que tinha tentado preencher uma grande parte da vida, vazia e solitária, com palavras, o bordado tinha-a comovido sempre. Por causa daquele L premonitório? Por toda aquela beleza, quase clandestina, destinada  a passar de gaveta em gaveta? Por todo aquele trabalho que tinha enchido dias vazios?
Qual das mulheres da família o teria bordado? Tinha sido uma dessas mulheres educadas na resignação, disso tinha certeza. Mas qual? Todas sem força de arrostar sozinhas o julgamento de uma sociedade que as condenaria. Sem a coragem de abandonar os filhos a mãos mercenárias e sem o furor, ciumento, de Medeia para os matar, porque só isso seria capaz de ferir o coração que as abandonava e lhes traía o leito vazio, onde tinham dado à luz, bordavam. Longamente, bordavam a solidão. Com agulhas, minuciosas, que passavam lentas de um para o outro lado do bastidor, e pontos miúdos, rebatidos e afeiçoados com a  unha e o dedal, na clausura provinciana de longos dias e longas noites sem aconteceres, bordavam as horas, a ausência, a longa espera, o abandono, a traição, o desespero - o pensamento a oscilar entre o folhetim e o livro de orações. Mudamente, de lábios cerrados, bordavam a solidão com arte branca que mais encegueia o linho fresco do enxoval, onde tinham deixado a chaga rubra da sua virgindade, entregue. Durante horas, dias, noites, tinahm feito surgir aquela beleza no linho, que haviam sonhado toalha para o rosto amado, mesa florida de festa e lhes era sudário, em vida. Queridas vovós!"

Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005, pp. 248-49.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Esplendor da Língua

A-Ver-O-Mar


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas - Deste livro, retirei um excerto belíssimo, um dos mais belos da língua portugesa, que apresento, depois da imagem:

(Imagem retirada da internet - Autor desconhecido)

"Ao largo distancia-se um navio e leva minhas raízes dolorosas. Para longe seja! Corta e alivia saber que, em pedaços, me rasga o vento. Que pelo ar se espalham, se rompem, se esgarçam noites cegas de tanta solidão. Que no voo do tempo, cruzado pelo voo ignorante das aves, se desfolha e desprende a minha impetuosidade quebrada contra as pedras e os gelos, lembranças sidas, o que me foi e fui: vozes sem rosto, rostos sem direcção de olhar, bocas sem contorno, mãos vazias, gestos sem sentido. Assim me parto de mim, no sangue ainda o cimento das paredes, a liberdade rasgada das janelas, nos olhos este volume de azul crispado de espumas. Num desgaste lento, igual ao das águas, que transformam náufragos e destroços em flores de maresia, o vento me rasga e me soluça. Até ao fim das luas e das galáxias me soluçará, porque não chorei, infinitamente, aquela chuvosíssima dor que me foi ensombração e nuvem.
A concha vazia e já sem eco do meu corpo sobrevive-me numa ausência que, implacável, desce - e o silêncio margina e prolonga indefinida.

Na noite, na palma da noite - abandona-se um corpo. Fruto ardente de estreitos flancos, delta e rosa dos ventos, abre-se ao frio nocturno e ao sémen das estrelas. Seu coração, como os fósseis dos lírios da montanha sepultos nos abismos, repousa onde florescem corais e palmas de gorgonas. Ofélico, mítico, as magnólias dos seios ceifadas pelo cutelo da lua, no entrechoque das ondas, adormido, ondula, quase respira, frente à enseada. As águas o submergem, o luar o afirma, o vento o fantasmisa e o torna irreal. Flor de sonho e ausência, as centáurias hão-de sugar-lhe a fonte profunda do sexo, por um bosque cerrado defendida. E na madrugada, pétalas ósseas dos jardins do mar, o recolherão nas suas corolas esparsas."


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1980.