Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Lourenço. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Lourenço. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Biblioteca

Por razões profissionais, preparava uma atividade na biblioteca, quando a atenção se desviou para dois títulos: Pedro Mexia, Biblioteca, Lisboa, Tinta da China, 2016 e Libório Manuel Silva, Bibliotecas: Maravilhas de Portugal, Famalicão, Centro Altântico, 2013, ambos com prefácio de Eduardo Lourenço.

São livros diferentes, é claro; o primeiro reúne crónicas que Pedro Mexia publicou no Público e no Expresso de março de 2008 a março de 2015, o segundo fotografias do autor de 22 bibliotecas históricas de Portugal. O que têm em comum, então, para que a memória os tenha convocado ao mesmo tempo? O fascínio pela leitura, pelo saber e pelo livro. 

O fascínio pelo livro, pela sua arrumação nas estantes, forrando paredes, sublimando os lugares, não tem medida. Nem essa estranha sedução dos dicionários, das listas, dos compêndios, das enciclopédias, das coleções... O que faz o encanto dos objetos e da sua acumulação? Será o sentido da permanência? Será a materialidade do conhecimento, do prazer da leitura? A matéria dos livros?...
Pedro Mexia refere o sentimento de orfandade ligado ao fim das enciclopédias antigas: "O fim da Britannica, e das enciclopédias à moda antiga, é para mim quase uma orfandade." (p. 20) De facto, por mais louvável e democrático que seja esse expoente de enciclopédia viva que é a Wikipédia, não escapa à falta. Falta de quê? Falta de especialistas, sim, mas principalmente de um corpo, matéria palpável, pronta a desfazer-se em pó e, simultaneamente, prometendo escapar a Cronos. Parece-me... qualquer coisa... se não é de amor que se fala, do que será, então?...

domingo, 27 de abril de 2014

"A liberdade até pode ser uma coisa boa, eu é que não tenho serventia para ela." ("Melhor que falecer" - Ricardo Araújo Pereira - TVI)

Maria Helena Vieira da Silva (cartaz)
Sophia de Mello Breyner Andresen (frase)
Esta foi talvez a frase mais triste que ouvi nos últimos tempos. Será humor negro; seja o que for, é genial. Foi o 10º episódio de "Melhor que falecer", programa de Ricardo Araújo Pereira na TVI, que passou no dia 25 de Abril. Excelente Maria do Céu Guerra. Este Portugal continua aí, está no meio de nós, está dentro de nós. 

Ainda a propósito dos 40 anos do 25 de Abril, assinalo a edição especial do Jornal de Letras e dois artigos: "A Revolução revisitada", de Eduardo Lourenço, e "Lembrar o momento perfeito", de Lídia Jorge. 

Cito, do primeiro, o final, que vem ao encontro de algumas leituras sobre a identidade nacional realizadas noutro contexto:

"A grande questão, a que merece ainda ser colocada, hoje em dia, em tempo de crise, nacional e europeia, é esta: adquirimos, para além das aparências, esse rosto novo que a memorável Revolução nos teria dado? Durante séculos, ser português significava implicitamente sentir-se filho de um país colonizador e, por essa razão, dotado de uma espécie de identidade universal imaginária. Agora, que com excelentes motivos, não nos podemos prevalecer deste rosto imaginário, em que é que nos convertemos? Estamos na Europa, mas custa-nos, a nível simbólico, definir-nos como europeus. O "europeísmo" não acrescenta nada - por enquanto - àquilo que nos sentimos ser. Sobretudo, não substituiu a inscrição no espaço, ao mesmo tempo onírico e real, que nos fez sonhar durante 500 anos.
E isto leva, para terminar, ao único tipo de carência que, ao fim destes 40 anos de pós-revolução de Abril, se pode assimilar a uma certa desilusão que toca o coração mesmo da Revolução e da histórica Revolução. A democracia foi legitimada; os seus efeitos na vida política e quotidiana dos cidadãos são inegáveis, por mais que a crise atual o ensombre. Vivemos num país livre e só aqueles que não conheceram nunca o custo de ter passado largos anos - ou toda uma vida - numa não-democracia, podem considerar estas regalias como formais ou desprezíveis. Todavia, de certo modo, a nossa democracia é ainda ao cabo de 40 anos uma espécie de regime sem nome.
Queremos dizer com isto que a Revolução - a de todos nós que ela restituiu ao gozo de uma cidadania adulta e, naturalmente, aqueles que historicamente foram os seus atores por a terem desejado e sonhado - não suscitou ainda um verdadeiro imaginário, como outrora o da primeira República e, mesmo, o Estado Novo.
Só o seu momento inaugural permanece vivo e recebeu na véspera da sua celebração, a primeira das suas evocações fictícias apta a converter, ou ser já, uma memória viva e realmente "memorável" [Eduardo Lourenço refere-se ao romance Os Memoráveis, de Lídia Jorge, conforme é indicado em nota de rodapé.]. Esperamos que esse retrato mitificado desse momento, para nós sempre presente, nos abra a porta para esse imaginário ausente que até hoje nos faltava para enterrarmos dignamente o imaginário de séculos que a mesma Revolução, em nome de exigências agora universais, sepultou para sempre."

Eduardo Lourenço, "A Revolução revisitada", Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1136, de 16 a 29 de abril de 2014.

sábado, 7 de janeiro de 2012

da identidade portuguesa

Leitura do Jornal de Letras. A figura central desta edição é Eduardo Lourenço, Prémio Pessoa. Sobre ele, e sobre o seu pensamento relativamente à identidade portuguesa, escreve Guilherme d'Oliveira Martins:

"No fundo, para o português uma identidade confinada não faz sentido. Ganhamos sempre que recebemos e dessa hospitalidade resultam perenidade e riqueza. Por isso mesmo, Eduardo Lourenço compreendeu melhor do que ninguém que em 1578-80 a figura central não foi D. Sebastião, mas Camões (com toda a sua riqueza épica e lírica), e que, ao modo de Vieira, o Desejado nunca poderia ser um morto ou um vencido, mas teria de ser alguém vivo - e, mais do que D. João IV, deveria ser o povo heterogéneo e difícil de interpretar, que deseja viver livre, com apego às viagens pelas Sete Partidas (talvez uma nova diáspora), à imagem e semelhança do Infante D. Pedro, duque de Coimbra (exemplo europeu e universalista), com uma alma pelo mundo repartida. Assim, a heterodoxia inconformista do escritor (discípulo à sua maneira, mas indiscutível, de Montaigne) considera a saudade fora da clausura do saudosismo, partindo das raízes antigas (D. Duarte, Nunes do Leão, Francisco Manuel e os românticos) e de Pascoaes (cujo talento enaltece) e chegando à fulgurante heteronomia de Fernando Pessoa."


Guilherme d'Oliveira Martins, "A Paixão das Ideias: Interrogador de Labirintos...", Jornal de Letras Artes e Ideias, 28/12/2011.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Para meditar:

O professor de Português e a leitura

Chegou hoje um livro fundamental sobre a leitura e a literatura portuguesa, a ler demoradamente, nos dias quentes que se aguardam. Aqui fica um apontamento para meditação:


"A responsabilidade do professor de Português exige que ele seja um profissional informado (quer dizer, que sabe muito mais do que aquilo que utiliza e mostra no seu trabalho quotidiano de docência) e entusiasmado (quer dizer, desenvolvendo em si próprio e nos seus alunos a capacidade de aprender com alma, com alegria). Por isso mesmo, o professor de Português não pode limitar-se a glosar os manuais e os livros do professor que os acompanham, nem a transmitir aos seus alunos, mas em versão reduzida, conhecimentos adquiridos ao longo do seu processo de formação. Lendo os ensaístas e os críticos como Eduardo Lourenço, e continuando a lê-los ao longo do nosso percurso de professores, tornar-se-á evidente que o saber que da leitura nos vem constitui uma actividade vital. E que ler poesia é estar apto a pensar-nos no mundo, é, em suma, viver melhor - porque, como aprendemos com Eduardo Lourenço, a poesia é a realidade, enigmática e luminescente como a Esfinge ou como a face de um antigo deus."


Paula Morão, "A Poesia como Realidade - Eduardo Lourenço e o Ensino do Português" in O Secreto e o Real: Ensaios sobre Literatura Portuguesa; Lisboa, Campo da Comunicação, 2011, p. 40.