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domingo, 25 de dezembro de 2016

Noite de Natal

«Pai, dizem que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono – a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas da
morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome – porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.»

Maria do Rosário Pedreira, Nenhum nome depois, Lisboa, Gótica, 2004.


Um jeito manso

quarta-feira, 27 de março de 2013

Um poema de amor, e o quotidiano à espera



São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.


Maria do Rosário Pedreira, A casa e o cheiro dos livros, Lisboa, Gótica, 2002.

domingo, 14 de outubro de 2012

"A Ideia do Fim"

Maravilhosa poesia, a de Maria do Rosário Pedreira. Os três livros anteriores já os conhecia, agora debruço-me sobre o quarto, o último de Poesia Reunida (2012) - "A Ideia do Fim". Aqui deixo dois poemas da secção III:
 
 
 
Quando chegaste, eu já tinha a morte
dentro do meu sono; e só por isso não
sentia a pedra do coração nem o corpo
quase quase tão frio. Tu não notaste
 
que os corvos negros carpiam já sobre
o meu telhado - e ninguém te disse que
eu estava a morrer, porque só eu sabia
que desistir é coisa de um momento.
 
Juram, porém, que ouviste o sangue
cansar-se nas minhas veias e as larvas
estrebucharem rente à terra; e que então
afirmaste, sem dominar um grito, que o
quarto te cheirava absurdamente a flores.
 
Não me contaram se chamaste por mim,
se pela morte. Mas fui eu que acordei.
 
 
 
 
Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só
 
o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante
 
que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:
 
se ainda não sabias, és muito bem-vindo.
 
 
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2012.

A poesia, o amor e a morte

  
 
 
"a minha poesia está sempre um bocadinho associada a momentos piores da minha vida e funcionou sempre um pouco de uma forma terapêutica" (MRP)
 
 

sábado, 13 de outubro de 2012

untitled


Vem a morte dizer-me segredos ao
ouvido. Avisa-me da dor, ou quer
levar-me mais cedo para me poupar?

 
Maria do Rosário Pedreira, Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2012.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.

Chegou a casa acompanhada de um tom desarmonioso. A crise lá fora, o desconforto dentro da sua alma, um gosto amargo a quotidiano a rasgar a boca. Mas, felizmente, há palavras que oferecem bálsamos - as sugestões e partilhas de Um jeito manso, a vivência da poesia, alma e corpo, duas faces da mesma vida.

Foi assim que se lembrou de Maria do Rosário Pedreira e das mais belas palavras: casa, livros, perfume, amante, silêncio, noite, aves, corpo, genciana, flor de laranjeira, o teu nome suave, voo...


A Clean Miss
(imagem retirada de aqui)



Contam que as sombras permanecem agora mais tempo sobre
as dunas e que a flor de laranjeira rebentou pelos caminhos,
encantando as viagens; que os morangos crescem, se os dedos
se aproximam, e que já se ouve, ao longe, um rumor de asas
contrário a qualquer vento. Falam de um perfume estranho
que paira pela cidade e das palavras soltas que os rapazes
andaram a escrever pelos muros em segredo. E eu não sei nada

disto que me contam, nem me aquece a luz quente que,
como dizem, afaga de manhã os ombros de quem passa e vai
a outro lugar sentir o mesmo lume. E eu também já não sinto

a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite
à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-me
dos gatos. Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.


Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros, Lisboa, Gótica, 2002.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

As mais belas palavras

As mais belas palavras são as amorosas. Maria do Rosário Pedreira - dois poemas de amor:



Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o
verão. E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados lavados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.


Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros, Gótica, 2002.



Quantas pessoas caminham na
minha direcção? Quantas me
descobrem por entre a multidão
e pousam os seus olhos inteiros
nos meus olhos? Poderia acreditar

que entre elas está o homem que
trocaria comigo os dedos sobre a
mesa, uma palavra que fosse gomo
de laranja e poema, o corpo aceso

sob o lençol cansado de mais um
dia. Mas quantos destes rostos de
pedra que me cercam escondem o
seu pelas ruas desta tarde? Quantos
nomes de acaso e de silêncio terei
eu de escutar para descobrir o seu

no meu ouvido? Quantas pessoas
caminham contra mim?

Maria do Rosário Pedreira, Nenhum Nome Depois, Gótica, 2004.