No Público de hoje, lê-se um artigo da Professora Helena Carvalhão Buescu sobre os exames nacionais e o ensino do Português, em que se salienta o essencial do desastre evidente. Transcrevem-se algumas passagens, para reflexão ou tomada de consciência:
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Ora, a realidade é esta: desde 2002 que (como demonstrou Maria do Carmo Vieira) o ensino do Português tem vindo consistentemente a diminuir e até a excluir a dimensão literária, para acentuar textos informativos e sobretudo técnicos, como abundantemente se sabe (e os pais, em particular, deviam saber). E, em vez de privilegiar o uso da língua, tem vindo a ganhar espaço uma estratégia que passa pelo incremento da metalinguagem, de forma absolutamente desproporcionada e sobretudo desadequada aos vários níveis de aprendizagem. [...]
Os resultados estão à vista de todos. A diminuição do ensino da literatura (e o correspondente facilitismo) tem trazido melhores resultados aos nossos alunos, senhora presidente da Associação de Professores de Português? Todos vêem que não. Há, pois, que deixar de manipular os resultados e os factos, há, pois, que ter a coragem de dizer que os últimos dez anos têm produzido piores alunos, com maiores deficiências ao nível da compreensão e da escrita e, por isso, com maiores dificuldades de pensamento. Isto significa em Português - o que, em Portugal, significa também em todas as outras disciplinas. E em todas as vertentes da vida como lugar de cidadania, de cultura e de arte.
[...]
Perguntei uma vez, torno a perguntar agora: que perfil queremos para os nossos filhos? Queremos apenas que saibam elaborar actas? Ou queremos que, ao serem confrontados com as alegrias e as dificuldades do saber pensar, possam estar à altura do futuro que para eles preparamos?
Não é dever do ensino básico e secundário preparar o difícil, para que cada um, em seu momento, possa "passar além da Taprobana"? Ah, pois é, Camões falou também para nós..."
Helena Carvalhão Buescu, "Há que deixar de manipular os resultados e os factos", Público, 31/07/2011