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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Sete rosas mais tarde



COM A PALAVRA-SEIXO na mão fechada,
esqueces que esqueces,

do pulso irrompem,
refulgentes, os sinais de pontuação,

pela terra fendida
como um pente
vêm as pausas a cavalo,

ali, junto
ao cacho de oferendas,
onde se extingue o fogo da memória,
apanha-vos O
Sopro.


DIZEM-ME QUE O MACHADO FLORIU,
dizem-me que não se pode nomear o lugar,

dizem-me que o pão que o olha
salva o enforcado,
o pão que  a mulher lhe cozeu,

dizem-me que chamam à vida 
o único refúgio.



Paul  Celan, Sete rosas mais tarde - Antologia poética, Lisboa, Cotovia, 1993 (selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno).



terça-feira, 4 de setembro de 2012

Leitura - Maria Gabriela Llansol


Na edição de 22 de Agosto do Jornal de Letras, João Barrento escreve um texto de divulgação das Quartas Jornadas Llansolianas, em que reflecte sobre a publicitação da obra da escitora. Das ideias explanadas no artigo, destaco esta: todo o texto carece de interpretação, sendo que, como afirma João Barrento, "interpretar é aqui um gesto instável e aberto, e sempre à espera de ser refeito, que vê este texto como construção textual e ideativa contínua e única, numa Obra que é um rio de escrita em que cada texto abre para outros, os prolonga e se prolonga neles."
 
Quanto à forma de ler esta Obra, o ensaísta dá-nos orientações que também nos ajudam a interpretar outros textos literários:
 
"A simples leitura "minha" não basta, todo o texto pede o complemento da interpretação, porque nenhum texto está para além dela - pela simples razão de que é isso que o faz viver no(s) tempo(s), e porque nenhum texto humano é sagrado, muito menos o de Llansol, que se queria, e era, humana, demasiado humana, também nas suas fraquezas e nos seus excessos."
 
"Neste caso, a interpretação não pode pretender fugir àquilo a que alguns chamam "ranço académico" para cair na prática ainda pior, e insuportável, de produzir textos críticos pretensamente "poéticos", ecoando o texto primeiro, repetindo-o à exaustão, como tantas vezes vem acontecendo."
 
Deste artigo, não se pode depreender que se desprezam as leituras pessoais desta Obra ou de qualquer outra; elas têm o seu lugar na longa vida dos textos, mas o papel do crítico, ou de outros com responsabilidade, é de outra índole e exigência, pois que dele se espera um "serviço", como se lê no último parágrafo:
 
"É ingenuidade, e um mau serviço prerstado à literatura (e neste caso não tenho qualquer problema em falar de "serviço"), partir do princípio de que "as pessoas" descobrem por si o que vale a pena ler, e saberão escolher, esmagadas como estão pela propaganda, essa sim, do inútil. Elas simplesmente não "escolherão" se as obras não estiverem disponíveis, não poderão escolher o que ler se ninguém se esforçar por manter vivo um autor. É cómodo dizer "quem sentir falta que leia", e deixar apagar de vez a luzinha que mal se vê no meio de tanto fogo-de-artifício. Neste mundo implacável e insensível alguém tem de acender luzes de cores diferentes das dominantes, sob pena de nos deixarmos afundar num mar de fogos-fátuos e lantejoulas." 
 
 
[Estas palavras deveriam ser lidas várias vezes ao dia por autores de programas escolares, formadores de professores, professores e educadores em geral. ]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Azul


Leitura de João Barrento e de Maria Gabriela Llansol - textos da escritora





E porque as palavras reverberam, acordam ecos, lembrou-se a leitora de outra ocorrência de azul. O filme de Kieslowski e essa actriz maravilhosa que é Juliette Binoche. Para sempre, um filme, uma canção para a Europa e o rosto da mulher. A face no espelho, paralisante, fascinante, inesquecível.