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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O poema não cabe no teste

[Folhear, folhear livros de poesia e não encontrar um poema que sirva a resposta fácil. Este, por exemplo, tão belo, nunca seria escolhido.]
 
 
 
Visto de perto é a melancolia.
Assim todas as manhãs a de hoje e a seguinte.
 
 
Visto de perto não é barco é melancolia.
 
 
João Miguel Fernandes Jorge, À beira do mar de Junho, Lisboa, Na Regra do Jogo, 1982.
 

terça-feira, 5 de junho de 2012

A estranha ausência do Adeus


DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA



Para a Beatriz Vieira


Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.

[...]

Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na
Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.



João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora – Segunda Parte, Lisboa, Presença, 1988.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Exercício escrito [com ruído]

DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA

Para a Beatriz Vieira



Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso di-
zer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira – lembro-me sempre da Benilde do
Régio -, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel – o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)

Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.


João Miguel Fernandes Jorge, A Jornada de Cristóvão de Távora – Segunda Parte, Lisboa, Presença, 1988.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Prazeres contemplativos

Aos Meninos e Meninas de outrora, e de sempre


Foi este blogue acusado de excesso de peso. Como quem escreve procura a harmonia, a elegância suave, o reparo não lhe foi indiferente. Assim, desvia, por momentos, o olhar da doce lua, para contemplar o sol - recorda este poema de João Miguel Fernandes Jorge, há muitos anos lido em conjunto com queridos Meninos e Meninas: 


SUNBAKER

Nadara longas braçadas e o mar estava
revolto. Veio, sobre a areia,
até onde esta se tornava o domínio do sol.

Deixou-se cair de bruços, lentamente
deixou os membros a maior amplidão.
Respirava. Os cabelos negros

eram uma fina película brilhante e as
gotas de água do mar corriam p'las
espáduas e ombros, p'los graves músculos

dos braços. A cabeça poisava-a sobre
uma das mãos e entrava no invisível
escuro do rosto.

A outra mão descansava à frente, recebia
plena luz as horas nascentes que
prudentemente componho para uma viva,

nova amizade.
E que queres tu? Que vais querer ó novo
amigo, irmão da minha alma futura?

João Miguel Fernandes Jorge, Um Nome Distante, Lisboa, Contexto, 1984.