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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Quarta-feira de sol nos cabelos

Leituras.

Uma descoberta: Eugénia de Vasconcellos. Poesia surpreendente, de que estou a gostar muito. 

Fica um poema de Eugénia Vasconcellos e uma imagem de outras compras: Ana Cássia Rebelo, Ana de Amesterdam, Lisboa, Quetzal, 2015; Paulo Varela Gomes, Passos Perdidos, Lisboa, Tinta da China, 2016 (mais um livro lindíssimo da Tinta da China); José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, Alfragide, Leya/Livros RTP, 2016 (excelente iniciativa da RTP, em pareceria com a Leya, de louvar e colecionar).




Poema à mulher triste

Levanta-te.
Levanta-te.
Do fundo de ti, ergue-te
e um arquipélago de milagres
erguer-se-á contigo,
à tua esquerda e à tua direita,
ilhas súbitas.
E todas as coisas naturais
voltarão a jorrar de secretas fontes ocultas,
voltarão:
a composição harmónica do riso,
a melodia do sol nos cabelos,
e a violência das estrelas
explodirá de novo entre a erva e o orvalho
atravessando o vento
e as duas línguas de fogo.
A mulher dorme
esculpida sobre o túmulo de pedra,
e as mãos postas sobre o peito. Repete:
é a nascente
é a nascente
é a nascente.
E jorra um arquipélagos de milagres.
Ilhas súbitas
erguem-te.

Eugénia de Vasconcellos, o quotidiano a secar em verso, Lisboa, Guerra e Paz, 2016.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Dever de ofício


Hoje a leitura é por dever de ofício. Preparam-se as aulas de amanhã, especialmente o episódio chamado "A epopeia da pedra", do Memorial do Convento, obra de estudo obrigatório no 12º ano, ou não fora o seu autor o único nobel da literatura português.
Não deixa de ser irónico que, no dia do trabalhador, se trabalhe arduamente um romance e um capítulo em que os operários, construtores do convento de Mafra, são os protagonistas. A estes, pelo menos, já foi feita justiça, se justiça é a narrativa das suas vidas inventadas, à qual nem faltam os nomes próprios.  Fica assim reconhecido o valor do seu labor, trezentos anos depois, ou quase, e assegurado o seu futuro, pois que, desta forma, são os homens arrancados à escuridão das eras e lançados nos assentos da História. Só aquela que lê e elabora fichas de trabalho, guiões e outros instrumentos didácticos de alto calibre não verá a justa recompensa das suas horas esforçadas; já são menos 23%, repostos nunca, talvez no ano de 2018, dizem, ou será 2050? O pecúlio é uma miragem, o reconhecimento é nulo, o futuro será um charco de lamentações, sem nomes próprios de culpados, talvez só um nome comum se aponte - professores. Ainda por cima. Será por o trabalho não ser braçal, só dos dedos ligeiros, que o resto do corpo, exceptuando os olhos, se entrega à imobilidade?

Preparação das aulas

Manuel Gusmão, "Linguagem e História segundo José Saramago", Vida Mundial, Novembro de 1998:

Dois tópicos:

- modos da escrita;
- modo das configurações da historicidade.

A linguagem:

Neste artigo, Manuel Gusmão salienta dois "gestos verbais" da obra romanesca de Saramago: a forma da frase e a sua pontuação característica; a "apropriação activa da herança literária, cruzada com a invenção e a imitação de formas da coloquialidade mais comum".

Características da frase saramaguiana: várias frases contidas numa, ditas por duas ou mais personagens, frases estas separadas por vírgulas, sendo os seus limites indicados apenas pela letra maiúsculas inicial de uma palavra que vem depois de uma vírgula - "frase plurivocal".

"Este modo de frasear produz efeitos rítmicos e prosódicos, percepcionados por uma espécie de ouvido mental, e coopera com a construção de uma imagem ou de um efeito de narrador oral, participante activo naquilo que conta. Entretanto, pela sua dimensão plurivocal, e sobretudo quando a ligamos a outros traços do universo romanesco que ela ajuda a construir, esta forma de frase produz um outro efeito particularmente importante: ela mostra a radical socialidade da linguagem, de qualquer língua e de qualquer acto de fala. [...] Por outro lado, falamos sempre com "as palavras dos outros", deformando-as é certo; e por aí passa a possibilidade da individuação e da singularidade. É neste sentido, também, que o diálogo é a forma básica da fala, e que numa só frase se podem ouvir várias vozes. A plurivocalidade é também polifonia." (12/13)

Uso das palavras dos outros: exemplos: provérbios, citações. Neste últmo caso, há uma "correcção" da imagem do narrador oral, que amiúde se revela erudito, apropriando-se de registos discursivos e estilísticos da tradição literária.

A história:

"ficcionalização da matéria histórica" (13)

"Vários dos romances posteriores [a Levantado do Chão] procederão assim: supõem um texto ou textos prévios, nos quais descobrem ou inventam uma lacuna, textos que corrigem, ou que vão voltar uns contra os outros. Assim, em Memorial do Convento - a historiografia oficial [...]" (14)

Notas importantes para a leitura de Memorial do Convento (Manuel Gusmão o conjunto da obra romanesca e não apenas sobre este livro):

- "ficcionalização irónica, rapsódica e polémica da história já escrita" (14);
- "Esta ficcionalização tende a mostrar sempre, na enunciação narrativa, o presente histórico em que se escreve, criando a unidade de uma contradição, pela qual o narrador se simula contemporâneo da acção passada que conta e, ao mesmo tempo, alude à contemporaneidade do autor empírico." (14);
- "configuração do espaço-tempo e das populações do mundo narrativo": acontecimentos fantásticos ou maravilhosos" (os poderes de Blimunda  eo voo da passarola), mistura de personagenes ficcionais com personagens construídas osbre indivíduos históricos (D. João V, Bartolomeu Lourenço, etc.).

Um narrativa ético-política:

"Esse ethos é uma marca ético-política [...]. Mostra-se: - no escrever a voz dos que não têm lugar na escritura; nas apresentações dos construtores do convento, na oratória e na ciência de Bartolomeu, e na arte de Scarlatti; - nas listas de nomes "próprios" de mortos anónimos e/ou históricos que em vários romances aparecem [...]" (15)

"E é, também, um princípio de relativização e deformação da perspectiva, que permite inscrever um partis pris pelas gentes que não vêm na escritura, e pela humanidade (ofendida) dos humanos"