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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta-feira Santa

Niccollò dell' Arca. Pranto sobre Cristo Morto [pormenor]
(1463-1490)
DAQUI

Epitáfio

Querida vida,
pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.

Luiza Neto Jorge. A Lume. Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.

domingo, 23 de março de 2014

Primaverar




SO-NETO JORGE, Luiza

A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo:
sismos, orgasmos, tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda; 

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Luiza Neto Jorge, Poesia 1960-1989, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.

[Um dia as estantes estarão arrumadas; a vida arrumadinha.]

terça-feira, 10 de julho de 2012

Poemas a uma promessa de Verão


Audrey Hepburn
(Google Images) 



Um dia acorda-se e o abismo é berço,
E o diabo mais do que um irmão.
Todo o desvio tem o seu preço.


Luiza Neto Jorge, Poesia, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.


AINDA A POESIA

A poesia não é feita por um nem por todos,
nem esteve nunca na rua.
A poesia está na aspereza das coisas contra nós,
tão mais nítidas ao nosso olhar isento
quanto mais doem no coração silencioso.


Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

poesia 61 - a voz dos poetas

Hoje, a ouvir Gastão Cruz e Casimiro de Brito sobre a poesia 61, e a lembrar tantos poemas lidos com tanto gosto!

poesia 61: Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta.

O primeiro encontro, em 91 - Gastão Cruz, As Leis do Caos:

I'm far from being a pessimist. I see life
as a gorgeously-ironical, beautifully-indifferent,
splendidly suffering bit of chaos.

Eugene O'Neill (carta; 1923)

[Epígrafe do livro]


O ADJECTIVO

Na superfície o adjectivo brilha
O seu rosto reflecte a luz do dia
e cobre os nomes com um céu proibido


Gastão Cruz, As Leis do Caos, Lisboa, Assírio e Alvim, 1990.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Poema para Agosto

(Fica melhor aqui...)


O AMANTE

Onde o amante
se insinua
é dia

como um insecto procria
Vejo-lhe asas de vampiro

vagueia
amantemente
no circuito
aberto ao corpo
e à alma

Luiza Neto Jorge, poesia, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

pó, tão pó a pó

O que resta dos impérios, históricos, políticos, dos sentidos ou outros... poeira, um fio de memória...

CAMÕES NA ÍNDIA (2)

Penso nele sem acrimónia.
O mundo que o português criou
foi tão mau ou tão bom como o mundo
que o resto da Humanidade foi criando.

Sonharmo-nos Império?
Mas todos os grandes o fizeram:
o Camões, o Vieira, o Pessoa,
até o Cesário, de um certo modo,
nas nossas ruas ao anoitecer...

Só o Pessanha viu ao certo o que finalmente fica de nós:
pedras, conchinhas, pedacinhos de osso...


Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.

O título desta entrada vem de um belíssimo poema de Luiza Neto Jorge:

EPITÁFIO

Querida vida,
pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.
Luiza Neto Jorge, A Lume, Lisboa, Assírio & Alvim, 1989.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Da Solidão

Chegou tarde a esta poesia. A Lume, primeiro; muito depois, o resto. São poemas muito, muito bons.

A SOLIDIFICAÇÃO: A SOLIDÃO

os corpos gasosos movem-se
em correntes de ar
que solidificadas são
grossas paredes a separar
os outros corpos
a separar todos
os débeis estados da matéria

Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio e Alvim, 2001.

sábado, 14 de maio de 2011

Poesia na Tarde

Pelo Jardim Gulbenkian: famílias, em passeio, adolescentes, crianças tranquilas, adultos novos, de meia-idade ou já velhos, jovens na relva, leitores no anfiteatro, em baixo, actores de improviso, turistas rosados, deambulando, os patos, tantos, sombras, bancos e mesas de pedra, água fresquinha e rumorosa. Ela passeia também, bebendo a placidez do lugar e saudando fauna e flora, a amizade. A poesia do dia.

Oferece ao tempo estas palavras luminosas de Luiza Neto Jorge:

Dos felinos

Nenhum vocábulo detém o gato
e o sublinha, lacónico,
no choro, no cio.

Completo gemido, curvatura, elo.
Despojado, num túnel,
da pele, do pêlo.

Só lhe ganha o homem
ganhando erecção, êxtase,
circulação do sangue
orientada.

Luiza Neto Jorge, poesia, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.