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terça-feira, 10 de julho de 2012

Poemas a uma promessa de Verão


Audrey Hepburn
(Google Images) 



Um dia acorda-se e o abismo é berço,
E o diabo mais do que um irmão.
Todo o desvio tem o seu preço.


Luiza Neto Jorge, Poesia, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.


AINDA A POESIA

A poesia não é feita por um nem por todos,
nem esteve nunca na rua.
A poesia está na aspereza das coisas contra nós,
tão mais nítidas ao nosso olhar isento
quanto mais doem no coração silencioso.


Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

pó, tão pó a pó

O que resta dos impérios, históricos, políticos, dos sentidos ou outros... poeira, um fio de memória...

CAMÕES NA ÍNDIA (2)

Penso nele sem acrimónia.
O mundo que o português criou
foi tão mau ou tão bom como o mundo
que o resto da Humanidade foi criando.

Sonharmo-nos Império?
Mas todos os grandes o fizeram:
o Camões, o Vieira, o Pessoa,
até o Cesário, de um certo modo,
nas nossas ruas ao anoitecer...

Só o Pessanha viu ao certo o que finalmente fica de nós:
pedras, conchinhas, pedacinhos de osso...


Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.

O título desta entrada vem de um belíssimo poema de Luiza Neto Jorge:

EPITÁFIO

Querida vida,
pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.
Luiza Neto Jorge, A Lume, Lisboa, Assírio & Alvim, 1989.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lendas da Índia

Nunca lera Luís Filipe Castro Mendes. O primeiro livro revelou-se numa visita guiada por estantes livreiras, manifestando-se a sua grande qualidade poética logo na primeira leitura, de viés, à sombra de uma simpática esplanada:

     Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.


Este livro pede uma leitura demorada, mas isso não impede que aqui se divulgue um poema, encontrado por acaso a páginas tantas, que glosa a escrita na "estratosfera", isto é, no "blog", estranho diário, que se quer simultaneamente público e privado, solidão partilhada e irredutível...


Ei-lo:


QUEM SE EU GRITAR...?


Fecho-me aqui:
um blog é uma estratosfera,
é uma maneira de não pertencer a nenhum mundo,
é uma forma mais de estar sozinho.

É certo que é suposto partilhar:
mas é como se uma mónada do Leibniz
lançasse palavras numa rede de ausências,
para o silêncio das esferas.

Nunca adiamos a solidão.


 Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.