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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Leitura - Maria Gabriela Llansol


Na edição de 22 de Agosto do Jornal de Letras, João Barrento escreve um texto de divulgação das Quartas Jornadas Llansolianas, em que reflecte sobre a publicitação da obra da escitora. Das ideias explanadas no artigo, destaco esta: todo o texto carece de interpretação, sendo que, como afirma João Barrento, "interpretar é aqui um gesto instável e aberto, e sempre à espera de ser refeito, que vê este texto como construção textual e ideativa contínua e única, numa Obra que é um rio de escrita em que cada texto abre para outros, os prolonga e se prolonga neles."
 
Quanto à forma de ler esta Obra, o ensaísta dá-nos orientações que também nos ajudam a interpretar outros textos literários:
 
"A simples leitura "minha" não basta, todo o texto pede o complemento da interpretação, porque nenhum texto está para além dela - pela simples razão de que é isso que o faz viver no(s) tempo(s), e porque nenhum texto humano é sagrado, muito menos o de Llansol, que se queria, e era, humana, demasiado humana, também nas suas fraquezas e nos seus excessos."
 
"Neste caso, a interpretação não pode pretender fugir àquilo a que alguns chamam "ranço académico" para cair na prática ainda pior, e insuportável, de produzir textos críticos pretensamente "poéticos", ecoando o texto primeiro, repetindo-o à exaustão, como tantas vezes vem acontecendo."
 
Deste artigo, não se pode depreender que se desprezam as leituras pessoais desta Obra ou de qualquer outra; elas têm o seu lugar na longa vida dos textos, mas o papel do crítico, ou de outros com responsabilidade, é de outra índole e exigência, pois que dele se espera um "serviço", como se lê no último parágrafo:
 
"É ingenuidade, e um mau serviço prerstado à literatura (e neste caso não tenho qualquer problema em falar de "serviço"), partir do princípio de que "as pessoas" descobrem por si o que vale a pena ler, e saberão escolher, esmagadas como estão pela propaganda, essa sim, do inútil. Elas simplesmente não "escolherão" se as obras não estiverem disponíveis, não poderão escolher o que ler se ninguém se esforçar por manter vivo um autor. É cómodo dizer "quem sentir falta que leia", e deixar apagar de vez a luzinha que mal se vê no meio de tanto fogo-de-artifício. Neste mundo implacável e insensível alguém tem de acender luzes de cores diferentes das dominantes, sob pena de nos deixarmos afundar num mar de fogos-fátuos e lantejoulas." 
 
 
[Estas palavras deveriam ser lidas várias vezes ao dia por autores de programas escolares, formadores de professores, professores e educadores em geral. ]

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Pacto de inconforto

Nem sempre se encontram leitores de Maria Gabriela Llansol. Aqueles que entram no seu universo de escrita nunca mais querem deixar de a ler. Lêem  e gostam de partilhar as suas leituras:



Uma passagem sobre o texto llansoliano e o seu leitor, ou melhor, "legente":

"Os meus textos supõem um pacto de inconforto _______ são tal qual, se eu quiser que existam_____;
a palavra "inconforto" é, todavia, capciosa, indica incómodo e coração ansioso, à espera de um amigo sereno. Devo reconhecer que o meu texto, ao deixar inseguro o sujeito que enuncia, se dirige, de facto, ao ansiar do coração, e o coloca na sombra da dúvida. E, se o coração persiste em ler, é porque há nele um fulgor estético que ilumina o próximo passo, e o faz apoiar no detalhe justo e irrecusável."

Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig 1: O encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994.

Liberdade de consciência e dom poético

A ouvir falar sobre Maria Gabriela Llansol e a gostar cada vez mais, e querer ler e reler e reler e ler. A aprendizagem não tem fim; hoje foi a tomada de conhecimento da sua pulsão de escrita, do livro contínuo que é a sua obra, na qual se movem os textos, transitando de lugares e de livros, seja qual for o seu género, seja qual for a sua forma. Escrita que desconstrói a narrativa convencional, para a fazer "deslizar" para a textualidade, lugar que nos pode dar acesso ao "dom poético", conseguida já a "liberdade de consciência".

Sobre estas questões, leiamos as palavras llansolianas:

"A textualidade pode dar-nos acesso ao dom poético, de que o exemplo longínquo foi a prática mística. Porque, hoje, o problema não é fundar a liberdade, mas alargar o seu âmbito, levá-la até ao vivo,
fazer de nós vivos no meio do vivo.
Sem o dom poético, a liberdade de consciência definhará. O dom poético é, para mim, a imaginação criadora própria do corpo de afectos, agindo sobre o território das forças virtuais, a que poderíamos chamar os existentes-não-reais.
Eu afirmei que nós somos criados, longe, à distância de nós mesmos; a textualidade é a geografia dessa criação improvável e imprevisível; a textualidade tem por órgão a imaginação criadora, sustentada por uma função de pujança____________ o vaivém da intensidade. Ela permite-nos,
a cada um por sua conta, risco e alegria,            abordar a força, o real que há-de vir ao nosso corpo de afectos.

Na verdade, proponho uma emigração para um LOCUS/LOGOS, paisagem onde não há poder sobre os corpos, como, longinquamente, nos deve lembrar a experiência de Deus,
fora de todo o contexto religioso, ou até sagrado.
Apenas sentir, ao nosso lado, dentro e fora de nós, perto e longe, uma realiadde inconfundível, incomunicável, incompreensível e inimaginável mas que é, como nós, à sua imagem, unicamente presença____________ que nunca poderão falar, e que entre si trocarão um texto sem fim, feito de sinais, gatafunhos, que escrevem, mutuamente que as nossas presenças não nos fazem mal, nem medo."

Maria Gabriela Llansol, "Para que o romance não morra" in Lisboaleipzig 1: O encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Azul


Leitura de João Barrento e de Maria Gabriela Llansol - textos da escritora





E porque as palavras reverberam, acordam ecos, lembrou-se a leitora de outra ocorrência de azul. O filme de Kieslowski e essa actriz maravilhosa que é Juliette Binoche. Para sempre, um filme, uma canção para a Europa e o rosto da mulher. A face no espelho, paralisante, fascinante, inesquecível. 




Geografia sentimental

Às voltas com Maria Gabriela Llansol.

- Terminada a leitura de um livro muito esclarecedor sobre a obra de MGLlansol:

João Barrento (org.), Europa em Sobreimpressão: Llansol e as Dobras da História, Lisboa, Assírio e Alvim e Espaço Llansol, 2011.


- Continuação da leitura dos seus diários. Um recorte:

"[...] Mas compreendi, apanhei numa iluminação que a minha escrita não é um efeito, o efeito do meu carácter. Ela existe, ela é a causa, o que antes de mim me dividiu em acidentes de uma geografia sentimental e perceptiva tão total e globalizante na sua ausência de estruturação, que é quase impossível ter por suporte um ser humano.
Não compreendi hoje como consegui viver até aos quarenta e três anos.

Por vezes transformo-me em escrita como os homens se transformam em poeira. Hipótese: não sou dura pelo simples gosto de ser dura; sou dura quando sou lúcida, num lugar percutante da História e da minha história.
Minha história e História. Quem, que ser, terá a percepção do que vivemos hoje? Eu, convosco, ando sempre à procura de fragmentos perdidos."


Maria Gabriela Llansol, Uma Data em Cada Mão: Livro de Horas I, Lisboa, Assírio e Alvim, 2009.

sábado, 29 de outubro de 2011

Luxo de imagens

O coração persiste em ler. Desta vez, Maria Gabriela Llansol, um excerto de diário:



"Maredret
Reflexão para um casal demasiadamente poderoso

Esta relativa tristeza é uma tristeza de separação. Não demasiadamente profunda, porque o porto está à vista como um tranquilizante quadro familiar. Sempre escrevi por não ter mais nada que fazer ou a quem amar sem o risco permanente de decepção. Ou talvez a escrita tenha sido sempre  causa, e não o efeito. Prefiro esta segunda hipótese. De qualquer modo, não é uma solidão como a anterior ao meu casamento. É uma solidão perfeitamente dominada, e sem culpabilidade. Embora persista como tristeza aliciante, propícia a que a escrita prossiga interminavelmente até ser amaldiçoada à hora da minha morte.
Impediu-me um outro casamento, verdadeiramente sexual. Foi uma porta aberta a toda a originalidade e a todas as minhas contradições e intensidades.
Hoje, por exemplo, escrevi como recurso - para ter um amante, uma casa habitada, um secreto secretário. Com ela, tenho sempre possibilidade de ir adiando a minha próxima loucura, a que poderia conduzir-me à segregação asilar definitiva.
Prefiro meditar a ser triste." (p. 44)


Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão: Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009.

sábado, 10 de setembro de 2011

A Estátua de Leitura

Ana ensinando a ler a Myriam ou A Estátua de Leitura

(Imagem retirada do blogue Espaço Llansol)
  
"Ali, arde a substância onde Ana está ensinando a ler a Myriam, Ana sentada numa cadeira, com o livro aberto no colo, Myriam de pé, a olhar um dos primeiros textos, "que é um cavalo que vai saltar". Está sendo beijada na boca pelas letras, e inclina a cabeça para trás, pois a seta da clemência atravessou-lhe o vestido. "Quem for clemente, lê". Se a linguagem, segundo diz Ana, for aprendida pela visão, ela, no fim, tirará da estante ardente a chave da leitura, e metê-la-á no bolso de Myriam."

Maria Gabriela Llansol, um beijo dado mais tarde, Lisboa, Rolim,1990.


Foi este o primeiro livro lido. Levou-o consigo para Casa  e, desde então, a sua estante guarda um lugar para os livros, ardentes, de Maria Gabriela Llansol.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Os bens da terra



“______ ao nosso alcance, sobre esta terra, eu creio que há cinco bens,
os bens da terra,            que são o conhecimento, a abundância, a generosidade, o prazer do amante e a alegria de viver.”

MGLlansol, Lisboaleipzig 1: o encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994.