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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A propósito de "selfies" e autorrepresentação online


Rubens. A Cabeça de Medusa. 1617.
"Haverá melhor auto-retrato do que aquilo que se vai publicando, bom ou mau, muito ou pouco, já que escrever é sempre uma forma imprudente de identificação e autobiografia?"
Marcello Duarte Mathias . "Auto-retrato" In A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas. Lisboa: Gótica, 2001. p. 325.

Andava esta leitora a pensar em selfies, após leitura de uma publicação de V. G. no Facebook / no blogue Enfermaria 6, sem chegar a conclusões, até porque não pratica a "modalidade", quando é surpreendida pela última página do Jornal de Letras (05 a 18 de agosto de 2015). Aqui, na secção de "Diário", o escritor Mário Cláudio publica "16 entradas do Facebook"! Surpresa! Surpresa! Então a escrita na famosa rede social também pode ser vista como escrita diarística?
As relações entre o blogue e o diário há muito que são óbvias, como já se pensou nestas páginas, verificando-se mesmo a transformação de alguns blogues em livros, como acontece com outros diários clássicos que chegam às livrarias, todos com qualidade literária variável, digamos. Já a assunção das publicações rápidas no Facebook como "entradas" diarísticas parece menos óbvia, parece que lhe falta o trabalho de representação do Eu que se evidencia no diário ou em blogues tão conhecidos como, por exemplo, o ana de amesterdam, também ele já com um duplo em livro. De facto, o imediatismo e a brevidade da escrita nas redes sociais parecem contrários ao labor e ao rigor da escrita que busca conhecer e conhecer-se e... revelar-se através da representação desse Eu enigmático e movente que atrai e atormenta o diarista. Acresce que a massificação característica das redes sociais parece mais propícia à reflexão sociológica sobre as formas de comunicar do homem desenvolvido (tecnológico) do que à reflexão literária ou ontológica. Ainda mais que lhes falta tempo, i.e., nem as publicações requerem grandes demoras, bastando, por vezes, um mero clique, quando se trata de "partilhar" vídeos, fotografias ou "posts" alheios, nem a sua visualização permite atrasos, uma vez que são constantemente sobrepostas ou substituídas por outras; podem voltar, é certo, mas, nesse caso, vêm desprovidas de cronologia pois o tempo das redes sociais é o eterno presente, não obstante as tentativas da rede de lembrar o que o utilizador publicou "há cinco anos". O efémero e o perene entrelaçam-se desta maneira, anulando essa dimensão essencial do humano que é o tempo. Que Eu, então, se vislumbra? Um ser liberto do mal de Cronos ou um ser prisioneiro do presente sem fim nem princípio?
A estranheza das selfies e a dificuldade em entendê-las como sucedâneos do autorretrato resultam precisamente destas duas dimensões: a massificação e o imediatismo. A falta. Falta de quê? De tempo, claro. E da terrível face da Medusa. Mais do que de Narciso, arquétipo do sujeito autobiográfico ou do utilizador da rede, apaixonado pela sua belíssima imagem, admitindo que estas representações de si, tão iguais e repetitivas, sejam percorridas pelo amor, mesmo que louco. E o amor, não é feito de tempo e imaginação?
[E a leitora não conseguiu fugir ao juízo moral, pois não? Está mal.]

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os homens mais velhos são assim, dizem

"Fora de Jogo
Ter cinquenta anos


A miopia era leve, inconsequente quase. Agrava-se dum dia para o outro, e torna-se um empecilho de todos os instantes. Vai-se, por piada, ao otorrino, que é um amigo, e descobre-se, meio a brincar também, que a audição é perfeitamente normal para um homem de cinquenta anos!
É tudo assim: um nunca mais acabar de insignificantes pequeninas coisas de súbito intransponíveis. Correm-se cem metros para apanhar o comboio, perde-se o comboio e fica-se dobrado em dois, esgazeado, com os bofes de fora e ambas as mãos agarradas ao nó da gravata. Uma constipação leva uma semana a passar, uma dor de cabeça mete-nos na cama, uma sopa de peixe deixa-nos mal dispostos para o resto do dia, e de há muito que as noites deixaram de ser o que eram. Aliás, no vasto capítulo, tão vasto quanto imprevisto, que vai da gastrite à insónia, da cólica renal ao enfarte do miocárdio, para nos atermos apenas ao trivial, não há abrigos que valham e a ameaça é sempre totalmente invisível. A própria caligrafia, que nunca foi grande mostra, piora sem que se perceba porquê, como se também estivesse doente." (p. 328)

"As mulheres, por exemplo, que eram a coisa mais fácil e próxima deste mundo (quem é este gajo aqui, ao meu lado, que tem trinta anos, o sacana, e não tem barriga!), passaram, num abrir e fechar de olhos, para o lado de lá do cais ou da rua ou da vida, já não sei, depende dos dias, deixo-me ficar aqui sem razão nem proveito, sorriso reprimido e cara de parvo, a acenar-lhes adeus e boa viagem... Deixá-lo, há pior, e daí talvez não." (p. 329)


Marcello Duarte Mathias, "Fora de Jogo" in A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001.


Antigamente os homens iam fazer 37 anos, hoje têm cinquenta ou assim, o que não é inconsequente. De facto, a acreditar no sujeito do texto de Marcello Duarte Mathias, esta parece ser uma idade fatídica, assombrada, o umbral de todas as insuficiências masculinas, de que a mais grave, vista de aqui, será a metamorfose da relação com as mulheres, colocadas à distância, do "lado de lá do cais ou da rua ou da vida", merecedoras só de um "sorriso reprimido", de uma "cara de parvo", de um insípido "adeus", e nada mais. Já não bastavam o rosário das doenças e a multiplicação das lamúrias, a tibieza tinha de vir cogular a medida.
O que pode uma mulher fazer com tal afastamento dos sedutores jogos da vida, senão estranhar-se? Ainda mais quando uma educação marcada pela diferença de género fez acreditar que a timidez e a insegurança, relativa a coisas parvas, eram apanágio do feminino. Estranhar-se ou, em alternativa, ter saudades do passado, do tempo dos sorrisos convidativos, das conversas ora provocadoras, ora cariciosas, atraentes sempre, dos olhares acesos, e incendiários, porque não? Ou então reinventar súbitas mãos andantes e jogos de palavras, de mui prazerosa memória.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um espelho no caminho

"A conversa recai sobre algumas figuras nacionais muito em voga. Num país como o nosso - rico de sentimentos, escasso de convicções -, todo aquele ou aquela que afirme opiniões de forma peremptória passa logo ao estatuto superior de personalidade. Invejável condição que confere, a quem dela beneficie, consideração e impunidade.
Quanto às ditas opiniões, pouco interessa averiguar do seu bom fundamento, tudo está no tom com que se enunciam. É quanto basta.
De facto, entre nós, o elogio ou, o seu contrário, a maledicência, raras vezes exprimem espírito crítico."


Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006, p. 261.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Contemplatio mortis

... um dos dias da semana recebe a felicidade, que vem de mansinho, senta-se e fica ali, muito quietinha, a embalar as horas do dizer e do calar. Trouxe uma prendinha. Vamos, então, desembrulhá-la e saboreá-la - um exercício:

Caravaggio, Medusa

"Escrever o quê? Pensar o quê?" (Vergílio Ferreira, Escrever)

Qualquer diarista, por menos reflexivo que seja, já se defrontou com estas interrogações. A introspecção é tanto mais inquietante quanto a matéria da escrita e do pensamento se revela ser o próprio "eu", desde logo pela dificuldade em dizer, ou "explicar", o que seja esse "eu". A linguagem oferece casas: eu, me, mim, comigo, pronomes que instituem a  pessoa como sujeito e objecto, em simultâneo.
A fragmentação, todavia, não se fica por aqui, também o tempo e o corpo, ou a sua percepção, desdobram esse incerto "eu". De facto, olhando-se no espelho das palavras, quem vê vê-se a ver-se e a ver-se outro, perdido nas curvas do tempo, descontínuo, retalhado! Confuso? Inquietante? Freud chamou-lhe "estranheza inquietante", especialmente despoletada pela contemplação do desmembramento do corpo, sistematizou o narcisismo; Jean Clair refere o mal do espelho, que oferece à Bela não o prazer da contemplação, mas o terror da visão da velhice e da morte, em suma, da petrificante Medusa.
Assim, da escrita do diário facilmente se ausenta a contemplatio voluptatis para se instalar a contemplatio mortis - Narciso transformado em Medusa!


Edward Burne-Jones, The Baleful Head


(Mas que as representações desta monstruosidade são belas, sedutoras, irresistíveis, é inegável! Atracção masoquista?)

Não termina esta entrada sem um conforto - estas palavras de Marcello Duarte Mathias:

"[O diário] Substituto ao mesmo tempo do divã do psicanalista e do confessionário, é o lugar do conflito e da reconciliação, da imobilidade e do desafio." (MDM, A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001, p. 211.)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dos diários e assim

"Este diário da Índia, embora a ela evidentemente se refira por diversas vezes e de diversas formas, foi, na altura em que lá vivia, um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso, e de procurar enraizar-me através de leituras, livros e recordações, noutras paisagens e gentes. Uma forma avulsa de me reencontrar.
Quantas vezes a elaboração de um diário não nos oferece a possibilidade de embarcarmos para outras paragens...?"

Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006.


Por que se escrevem diários? Porquê manter este diário de leituras? Qual a origem da compulsão da escrita diarística?

Estas perguntas são de difícil resposta e requerem leituras, pois que de um género de escrita complexo se trata. No entanto, fiquemo-nos por uma reflexão impressionista, mais ajustada à canícula recém-chegada.
Se atendermos às palavras de Marcello Duarte Mathias, um diário é uma forma de evasão - "possibilidade de embarcarmos para outras paragens" - e de enraizamento noutra paisagem - "outras paisagens e gentes"-,  através de "leituras, livros e recordações". Recorremos, então, ao papel ou ao rectângulo branco para nos libertarmos do mal-estar quotidiano ("um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso"), achando morada no território dos afectos, novo e antigo. Assim, recolhemos fragmentos vários, palavras, imagens, sons, com a intenção de criarmos uma paisagem a habitar, por nós e por outros. Sim, por outros, pois que os diários aqui lembrados não se escondem na gaveta, antes se oferecem aos mais diversos e incertos olhares.
Nesta terra oscilante, somos o espelho, o rosto e o retratista, que move a cabeça com as mãos, buscando a melhor pose: com inclinação, sem inclinação, de perfil mais ou menos pronunciado, à medida da velatura desejada... A nomeação faz-se por meio de perífrases, palavras compostas, pronomes vários, muitas vezes na terceira pessoa, também há quem recorra a letras maiúsculas seguidas de pontinho. Não raro, convocam-se máscaras sugestivas da face oculta. Estratégias para esconder e revelar a identidade. Quem escreve, afinal, é e não é aquele que se toma por autor. O diarista, afinal, quer criar o novo feliz, mas reunindo o vivido (lido). O diarista, afinal, é um colector, que quer voar, mas levando nas asas todo o mundo conhecido. Quem escreve, afinal, procura-se a si e ao outro...
... Afinal?
E, então, quando o diarista tem a compulsão de APAGAR tudo (quase tudo...) o que escreve/coloca no blogue, no diário? Vê-se que o diálogo é constante, não só com o mundo das palavras, mas também com os leitores do dito blogue-apagando-se, que, nota-se, comentam de viva voz o que vai surgindo e servem tanto de interlocutores como de inspiradores. Talvez seja isso: o centramento no presente! Mas... Todos os diários se centram no presente, ou não?
A verdade é que esta leitora, armada em diarista, não sabe o que é um diário, não sabe por que razão mantém este blogue ( não quererá saber bem...), o que sabe é que gosta de escrever estas entradas e das respostas que lhe vão chegando. Descobriu sobre si que é uma colectora, por isso não entende Jocardo / Peribiblio, com a sua ânsia de apagar!