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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Outra raiz da poesia amorosa - "Cântico dos Cânticos"


Marc Chagall



O Esposo - Como és formosa, amiga minha!
Como és bela!
Os teus olhos são como pombas.

A Esposa - Como és belo, meu amor! Como és encantador!
O nosso leito é um leito verdejante, as vigias da nossa casa são de cedro, os nossos artesonados são de cipreste.

Eu sou o narciso de Saron,
o lírio dos vales.

O Esposo - Como o lírio entre os espinhos,
assim é a minha amiga entre as donzelas.

A Esposa - Como a macieira entre as árvores da floresta,
assim é o meu amado entre os jovens;
anelo sentar-me à sua sombra,
e o seu fruto é doce à minha boca.
Ele introduziu-me na sala do festim,
e o estandarte que desfraldou sobre mim, é estandarte de amor.
Confortai-me com uvas passas,
fortalecei-me com maçãs,
porque desfaleço de amor.
A sua mão esquerda descansa sobre
a minha cabeça,
e a sua direira abraça-me.

O Esposo - Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
pelas gazelas e corças dos campos
que não acordeis nem perturbeis a minha amada,
antes que ela queira.

[...]

A Esposa - Durante a noite, no meu leito,
busquei aquele que a  minha alma ama;
procurei-o mas não o achei.
Levantei-me e percorri a cidade,
as ruas e as praças,
em busca daquele a quem a minha alma ama;
procurei-o e não o achei.
Encontraram-me os guardas
que faziam a ronda na cidade.
«Vistes, acaso, aquele a que a minha alma ama?»
Mal passara por eles,
encontrei aquele a quem a minha alma ama.
Agarrei-me a ele e não largarei mais,
até que o tenha introduzido na casa de minha mãe,
no quarto daquela que me concebeu.

O Esposo - Conjuro-vos, ó filhas de jerusalém,
pelas gazelas e corças dos campos,
não desperteis nem perturbeis a minha amada;
antes que ela o queira.


"Cântico dos Cânticos", in Bíblia Sagrada, Lisboa, Difusora Bíblica, 1981 (excerto).

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Amada Língua Portuguesa

Dois poemas de Luísa Dacosta e uma pintura de Marc Chagall


Marc Chagall, Cântico dos Cânticos


O TU E O EU NA PAISAGEM

Não é o restolhar do vento.
É a tua lembrança
que se ergue em mim.

Não é a rosa do sol a esfolhar-se.
É a minha boca - sede e romã -
que sangra na tarde.

Não é a noite que desce.
É a sombra dos teus olhos
a fechar o horizonte.



NÃO FOI ESTE O TEMPO

Não foi este o tempo para o amor
e agora é tarde,
abandona-me o espírito da vida.

Deixo-te os meus lábios
e a frescura, salina, da minha boca
– anémona dos jardins submersos.
A linha de seda do meu corpo
para o teu cansaço.
A água das minhas mãos
– pétala e asa no teu rosto.
Lembra-te.

Fora do espaço, do tempo e da circunstancialidade,
com o meu silêncio, labiríntico e recôndito
– enigma a decifrar...
Espero-te.

E amar-te-ei, antropofagicamente, como promete a Língua,
já que o eu se abre para te acolher,
os meus braços, fechados em X,
sobre o teu ímpeto e o teu desejo.
Procura-me.


Luísa Dacosta, A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto, Edições Asa, 2002.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ekphrasis III

Ela também possui o livro, do qual não se acercava há muito tempo. Lá estava, a um canto da estante, aquela que tem portas de vidro e guarda os livros escolhidos, lá estava. Um poema, um dos pintores que mais a emocionam - "Os Noivos Voadores de Chagall".

Chagall, O Aniversário, 1915

OS NOIVOS VOADORES DE CHAGALL

como se escrevesse um poema pinto a mulher
que irrompe da plumagem azulínea do galo
por cima das pontes anoiteceu onde flutuam
o bode e os noivos lancei por terra barreiras
entre elementos e leis físicas
para que o meu país se tornasse mais real
mais próximo de mim quando no exílio pouso
os lábios nas cores da avelã ou das nozes e
fico com o sabor dela na boca

recordo assim a casa paterna em vitebsk os nevões
de s. petersburgo daquela criança no mercado
apanhando moedas atiradas ao tapete e a cabra triste
em equlíbrio - bailando - em cima do gargalo da garrafa
os músicos de acordeão e violino sob o clarão da lua
estes noivos que toda a minha vida esvoaçaram felizes
de pintura em pintura pelos nocturnos céus de paris

Al Berto, A Secreta Vida das Imagens, Lisboa, Contexto, 1991.