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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Pensamento nº 560

Uma chávena de café e um pensamento, nesta Quinta-feira da Ascensão, feriado:

"560 Só à superfície de quem é superficial, já o disse, a alegria e a tristeza se distinguem. Porque na profundidade de nós elas confundem-se. Mas a sua manifestação pode diversificar-se em riso e em amargura. O riso é a forma de termos mais em conta os outros. A amargura, o modo de nos termos mais em conta a nós."

Vergílio Ferreira, Pensar, Lisboa, Bertrand, 1992.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Leituras obrigatórias

Até 2004, os professores do ensino secundário podiam escolher o romance do século XX que leriam com os seus alunos; esta escolha não era completamente livre, uma vez que tinha de ser consensual na escola, para além de estar limitada às obras indicados no programa, mas, ainda assim, havia alguma abertura. Não me lembro de todos os títulos, somente daquele que leccionei mais vezes - Aparição, de Vergílio Ferreira - e daquele que muitas escolas preferiam e que agora é de leitura obrigatória para todos. O Prémio Nobel atribuído a um escritor português veio, afinal, impor o elogio do mesmo, em vez de promover o gosto do diverso.

Deixo aqui uma passagem desse grande romance que é Aparição, cujo protagonista é Alberto, um jovem professor que se conhece a si mesmo, na nova cidade onde foi "colocado", Évora, através do convívio com as pessoas com as quais se cruza, especialmente as irmãs Moura: Ana, Sofia e Cristina. De todas, destaco a primeira, porque é a minha preferida  e porque o "folhetim" que ainda agora começou em Um jeito manso tem como protagonista uma outra misteriosa Ana.


"E contou, contou largamente, mas como um estranho, os silêncios de Ana, as horas sem fim à janela da pensão, suspensa dos horizontes de neve, os passeios solitários pela estrada entre pinheiros (não queria que o marido a acompanhasse «e eu, é claro, submeto-me sempre às suas ordens»). Depois foram para a Rocha, mas sem passarem por Lisboa nem por Évora. Aí recomeçou a sua meditação. Vagueava pela praia, às vezes mesmo de noite, sentava-se nas falésias, ouvindo o mar. «Eu dizia-lhe: - Aninhas, não precisas de nada? Sentes-te doente? E ela só me respondia: - Deixa-me.»
- Até que apareceu o Chico. Tinha ido ao Algarve em serviço e passou pela Rocha. Mas desta vez achou-se ao engano: a Aninhas mandou-o bugiar.
Olhei o bom Alfredo: ria largamente com o seu riso oco, como de um desdentado, a bochechinha vermelha. Tenho a certeza de que jamais Chico interessou a Ana. Alfredo sabia-o possivelmente também. Mas uma hipótese contrária parecia dar-lhe prazer - o velho prazer da humilhação. Mas teria Chico ilusões? Talvez: Alfredo era um convite a isso, até porque parecia admiti-lo e quase aceitá-lo. Mas tu, Ana, eras tão grande, tão bela na tua vigorosa afirmação, que é estranho ter Chico imaginado sobre ti o que não eras. Chico? Não o terei eu imaginado, não bem, embora, sob a forma de «traição» da tua parte, mas de uma forma clara e humana de «comunhão» comigo?
Era evidente que Ana sofria de uma «crise». Gostava de estar com ela, Ana sabe as palavras do abismo..."


Vergílio Ferreira, Aparição, Lisboa, Bertrand, 1996 (1ª ed. 1959).

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Contemplatio mortis

... um dos dias da semana recebe a felicidade, que vem de mansinho, senta-se e fica ali, muito quietinha, a embalar as horas do dizer e do calar. Trouxe uma prendinha. Vamos, então, desembrulhá-la e saboreá-la - um exercício:

Caravaggio, Medusa

"Escrever o quê? Pensar o quê?" (Vergílio Ferreira, Escrever)

Qualquer diarista, por menos reflexivo que seja, já se defrontou com estas interrogações. A introspecção é tanto mais inquietante quanto a matéria da escrita e do pensamento se revela ser o próprio "eu", desde logo pela dificuldade em dizer, ou "explicar", o que seja esse "eu". A linguagem oferece casas: eu, me, mim, comigo, pronomes que instituem a  pessoa como sujeito e objecto, em simultâneo.
A fragmentação, todavia, não se fica por aqui, também o tempo e o corpo, ou a sua percepção, desdobram esse incerto "eu". De facto, olhando-se no espelho das palavras, quem vê vê-se a ver-se e a ver-se outro, perdido nas curvas do tempo, descontínuo, retalhado! Confuso? Inquietante? Freud chamou-lhe "estranheza inquietante", especialmente despoletada pela contemplação do desmembramento do corpo, sistematizou o narcisismo; Jean Clair refere o mal do espelho, que oferece à Bela não o prazer da contemplação, mas o terror da visão da velhice e da morte, em suma, da petrificante Medusa.
Assim, da escrita do diário facilmente se ausenta a contemplatio voluptatis para se instalar a contemplatio mortis - Narciso transformado em Medusa!


Edward Burne-Jones, The Baleful Head


(Mas que as representações desta monstruosidade são belas, sedutoras, irresistíveis, é inegável! Atracção masoquista?)

Não termina esta entrada sem um conforto - estas palavras de Marcello Duarte Mathias:

"[O diário] Substituto ao mesmo tempo do divã do psicanalista e do confessionário, é o lugar do conflito e da reconciliação, da imobilidade e do desafio." (MDM, A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001, p. 211.)