Mostrar mensagens com a etiqueta Mário de Sá-Carneiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mário de Sá-Carneiro. Mostrar todas as mensagens

sábado, 16 de setembro de 2017

Mário de Sá-Carneiro

Algures na net...
Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Ática, 1989.

terça-feira, 26 de abril de 2016

"Um grande, grande adeus do seu poeta, Mário de Sá-carneiro."

Suicidou-se a 26 de abril de 1916 - Mário de Sá-Carneiro.

Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Ática, 1989.

Richard Zenith, Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, Círculo de leitores, 2008, p. 119 -
a despedida enviada a Pessoa, por Mário de Sá-Carneiro, em 3 de abril de 1916,
e a derradeira nota de despedida, no dia do seu suicídio.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Carnaval (palhaços tristes e outras máscaras)


AQUELOUTRO


O dúbio mascarado, o mentiroso
Afinal, que passou a vida incógnito;
o Rei-lua postiço, o falso atónito;
Bem no fundo o covarde rigoroso...

Em vez de Pagem bobo presunçoso...
Sua alma de neve asco de vómito...
Seu ânimo cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso...

O sem nervos nem ânsia, o papa-açorda...
(Seu coração talvez movido a corda...)
Apesar dos seus berros ao Ideal,

O corrido, o raimoso, o desleal,
O balofo arrotando Império astral,
O mago sem condão, o Esfinge Gorda...

Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, ática, 1989.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Mário de Sá-Carneiro

 

 
Adriana Calcanhoto canta Mário de Sá-Carneiro
 
 
Hoje uma Menina reconheceu o poema de Sá-Carneiro que a professora citava; tinha ouvido Adriana Calcanhoto cantá-lo. Aqui fica a interpretação da artista brasileira, seguida de dois poemas, já apresentados neste blogue.
 
 
 
Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.


Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estlizada,
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina -
Um som opaco me dilui em Rei...

 
Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 
  
                       7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio;
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 
 
[A confiança é um tecido esgarçado; a inconsistência dos fios vem da ambição desmedida e do medo. Do rasteirismo também, já agora. É pena.]

domingo, 25 de novembro de 2012

Do fim e outras acrobacias


FIM

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por foça ir de burro!

 
Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

 


segunda-feira, 26 de março de 2012

Apetece

Às vezes apetece, hoje, por exemplo. Mário Cesariny, magnífico poeta.




XIV


hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros


ora êste foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a molesa foi dormir


preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na  hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado


Sem Jeito Para o Negócio



Mário Cesariny, manual de prestidigitação, Lisboa, Assírio & Alvim, 1980.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro foi o poeta mais amado...
(Ai, a saudade, tanta.)



Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? De onde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estlizada,
A cor morreu - e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina -
Um som opaco me dilui em Rei...


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

sábado, 1 de outubro de 2011

Enigma

Andam às voltas com o insondável, o enigmático, o esquivo EU.

Para ajudar, aqui fica o poema de Mário de Sá-Carneiro, curto mas incisivo:


                       7

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio;
      Pilar de ponte de tédio
     Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Lisboa, Ática, 1989.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Voar

Uma fotografia e um poema que ensinam a cair:


Helena Almeida



QUASE


Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Então nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...  

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá-Carneiro, Poesia, Lisboa, Edições Ática, 1989.