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quinta-feira, 20 de março de 2014

A Primavera chega hoje às 16:57, dizem.

Dirk Stoop, Terreiro do Paço no Século XVII - 1662 
(Museu da Cidade)

A esta hora entre os blocos de prédios enevoados
          a bela mancha diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos
          braços da sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina             extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que
          lhe são remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentado de seguida pelas aves que acordam a duzentos e
          mais metros de altura
o que não é ainda grande altura
sim sim
                        não não
                                                     quem sabe

[...]

Mário Cesariny, o primeiro livro de Mário Cesariny - Corpo Visível: Poema - Assírio e Alvim e Fundação Cupertino de Miranda, 2010.


Intervenção de Cruzeiro Seixas no seu exemplar dedicado de Corpo Visível.
Este postal foi publicado por ocasião de:
Mário Cesariny - Encontros IV
Fundação Cupertino de Miranda, Famalicão, 25 a 27 de Novembro de 2010.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Apetece

Às vezes apetece, hoje, por exemplo. Mário Cesariny, magnífico poeta.




XIV


hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros


ora êste foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a molesa foi dormir


preferiu umas dores no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na  hora apaziguadora
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado


Sem Jeito Para o Negócio



Mário Cesariny, manual de prestidigitação, Lisboa, Assírio & Alvim, 1980.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Shining day II

Cesariny, um dos poetas maiores da língua portuguesa.




(Este vídeo estava ali, no Alpabiblio, da série Ler mais, ler melhor.)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

You are welcome to Elsinore

Mário Cesariny, grande, grande poeta!



you are welcome to elsinore


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte    violar-nos   tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores vevenosas    portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados,
e entre nós e as palvras, o nosso dever falar


Mário Cesariny, pena capital, Lisboa, Assírio e Alvim, 1982.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os limites do dinheiro

Após jornais diversos e muitos noticiários televisivos, apetece um gato branco...


Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
e vejo um gato branco à janela de um prédio bastante alto...
Penso que a questão é esta: a gente - certa gente - sai para a rua,
cansa-se, morre todas as manhãs sem proveito nem glória
 e há gatos brancos à janela de prédios bastante altos!
Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com que ainda é possível pactuar -
vêm com tal desprêso esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a...
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou inteiramente o gato
mas de gato para cima - nem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira-se-me o estômago só de olhar para eles!
São creaturas, é verdade, calcule-se,
gente sensível e às vezes boa
mas tão recomplicada, tão bielo-cosida, tão ininteligível
que já conseguem chorar, com certa sinceridade,
lágrimas cem por cento hipócritas.


Mário Cesariny de Vasconcelos, Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, edição fac-similada, Fundação Cupertino de Miranda e Assírio e Alvim, 2008 (excerto).

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Homenagem a Cesário Verde

(Porque há dias assim, em que o dever se cumpre com deleite, em que um poeta chama outro poeta e a leitura prossegue com prazer...)


homenagem a cesário verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cosidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda poetas cá no país!

Mario Cesariny, pena capital, Lisboa, Assírio e Alvim, 1982.


De Tarde

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.


Cesário Verde

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Dois excertos de poema

Noite fechada, já; no interior da casa lê-se Mário Cesariny de Vasconcelos:

"Saímos: seres usuais, gente-gente, olhos, narinas, bocas,
gente feliz gente infeliz, um banqueiro, alfaiates, telefonistas, varinas, caixeiros desempregados
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo aos mictórios para apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, realmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãi triste a aceitar dois bolos para a sua menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais."

"Não sou um proletário - vê-se logo
- mas odeio cordialmente a gataria
e quanto a crocodilos, nem os do Jardim Zoológico me atraem
quanto mais estes! - e aqui começa o embróglio..."

Mário Cesariny de Vasconcelos, Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, edição fac-similada, Fundação Cupertino de Miranda e Assírio e Alvim, 2008.