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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Fugas

Aos amigos doentes

SAÚL DIAS

A alegria do poeta doente

O Poeta doente
escreve versos na enfermaria.

Mesmo na dor
a sua alma é contente
se uma rima fugace 
poalha de harmonia
um verso recortado...

(O que diria
quem o encontrasse
agora
a rir perdidamente?!...)

Perdido no oriente!...

tanta, tanta alegria!...


MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

Carreirismo

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua. 
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.


LUÍS MIGUEL NAVA

Teatro

Na selva dos meus órgãos, sobre a qual foi desde sempre a pele o firmamento, ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa, onde se vê o sangue a rebentar contra os rochedos.
Do inferno, aonde às vezes o sol vai buscar as chamas, sobre ele impiedosamente jorram os projectores.

Clara Crabbé Rocha (org), A caneta que escreve e a que prescreve: doença e medicina na literatura portuguesa - Antologia, Lisboa, Verbo, 2011.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Esperar

Telefonema

Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade.

Mário-Henrique Leiria

Continuar a esperar

Rifão quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria