Aos amigos doentes
SAÚL DIAS
A alegria do poeta doente
O Poeta doente
escreve versos na enfermaria.
Mesmo na dor
a sua alma é contente
se uma rima fugace
poalha de harmonia
um verso recortado...
(O que diria
quem o encontrasse
agora
a rir perdidamente?!...)
Perdido no oriente!...
tanta, tanta alegria!...
MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA
Carreirismo
Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.
LUÍS MIGUEL NAVA
Teatro
Na selva dos meus órgãos, sobre a qual foi desde sempre a pele o firmamento, ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa, onde se vê o sangue a rebentar contra os rochedos.
Do inferno, aonde às vezes o sol vai buscar as chamas, sobre ele impiedosamente jorram os projectores.
Clara Crabbé Rocha (org), A caneta que escreve e a que prescreve: doença e medicina na literatura portuguesa - Antologia, Lisboa, Verbo, 2011.
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