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sábado, 7 de abril de 2012

Espera (com Madalena)


Leonardo DaVinci, Estudo para Cabeça de Madalena
Desenho 428 E., Galeria Uffizzi, Florença


À Madanela

À vossa verdadeira penitente
quam bem guardastes seus pontos devidos;
os Apóstolos eram já partidos,
ela não parte, vêde o que ali sente;

E assi mereceu ver primeiramente
Deus em terra em hábitos fingidos;
tudo Amor vence: altíssimos sentidos,
a quem tal ortelão se faz presente!

Gregório a põe por ua, outros Doutores
fazem as três; após Gregório vão
depois os mais, com todos os pintores.

Aqueles direu eu, Senhor, que são -
aqueles (outra vez!) que são Amores:
dos tais suspiros, um só nunca em vão!


Sá de Miranda

 in Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Lisboa, Ésquilo, 2008.



Jorge Pinheiro, ilustração
 para o conto "Aleluia na Manhã", de Luísa Dacosta


...
Os Apóstolos eram já partidos,
ela não parte, vêde o que ali sente.*


"Pedro e João já tinham partido. E com eles Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Só ela ficara e não podia desarredar-se daquele lugar de ausência e vazio, donde o Senhor fora arrebatado. Preparara bálsamos e perfumes, mas não mais lhe seria permitido venerar aquele corpo torturado, tocar aquelas mãos que lhe tinham dado a benção do perdão, rever, apagados, aqueles olhos de meiguice que dela tinham expulsado os sete demónios que lhe consumiam a carne e lhe tinham dados outras sedes mais profundas e mais exigentes que as do desejo. Sentia-se abandonada, órfã. Uma amargura vestia-a inteira. [...]"


Luísa Dacosta, "Aleluia na Manhã" in Natal com Aleluia, Porto, Asa, 2002.
(*Epígrafe do conto citado)

domingo, 29 de maio de 2011

Francisco de Sá de Miranda

Dois poemas de Sá de Miranda: o primeiro, sobre a Mudança, foi dito na RTP2; o segundo, um dos mais belos poemas de Amor da língua portuguesa, é para ler vagarosamente, com muito gosto:





O sol é grande: caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão, que sói ser fria.
Esta água que de alto cai acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.


Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
Qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
Incertos muito mais que ao vento as naves.


Eu vira já aqui sombras, vira flores,
Vi tantas águas, vi tanta verdura,
As aves todas cantavam de amores.


Tudo é seco e mudo; e, de mistura,
Também mudando-me eu fiz doutras cores.
E tudo o mais renova: isto é sem cura!


Sá de Miranda, Sonetos




Não sei q’em vós mais vejo; não sei que
mais ouço e sinto ao rir vosso e falar;
não sei qu’entendo mais, té no calar,
nem quando vos não vejo a alma que vê;

Que lhe aparece em qual parte qu’estê,
olhe o céu, olhe a terra, ou olhe o mar;
e, triste aquele vosso suspirar,
em que tanto vos vai, que direi que é?

Em verdade não sei; nem isto qu’anda
antre nós: ou se é ar, como parece,
se fogo doutra sorte e doutra lei,

Em que ando, e de que vivo; nunca abranda;
por ventura que à vista resplandece,
Ora o que eu sei tam mal, como o direi?

Sá de Miranda, Sonetos