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sábado, 22 de março de 2014

Leituras de Sábado

Folhear os jornais de Sábado é um acto de estupefacção. As páginas passam e pasma-se para a evidência das malfeitorias e dos seus propósitos. 

José Rentes de Carvalho dá uma entrevista ao Expresso (Atual), sobre o seu livro Portugal, a Flor, e a Foice, de 1975, editado agora em Portugal, pela primeira vez, porque antes ninguém o quis fazer. Muito interessante, como o livro também será. A ler, portanto. 

A páginas tantas, refere:

"Era tudo a mesma massa. Não conheciam o povo. Mesmo os neorrealistas e adjacentes. O que mais tinham em comum era o facto de frequentarem todos os mesmo cafés de Lisboa. Há muita gente que ainda diz: «Ah, eu ia muito ao café Gelo». Eu também passei pelo café Gelo, era um puto, tinha uns 19 ou 20 anos. Olhei e fui-me embora. Fui à minha vida." (p. 9)

Quem não ouviu já este discurso ou estas referências? Pois. José Rentes de Carvalho foi à sua vida e, talvez por isso, a sua obra levou tempo a chegar às livrarias portuguesas. Recordo um programa de televisão, cultural, em que a apresentadora e o seu convidado, o mesmo José Rentes de Carvalho, seguiam veredas mentais muito diversas. O pretexto para a conversa fora a publicação de La Coca, mas a entrevistadora não conheceria muito do "bom" povo retratado no romance, enquanto o entrevistado não estaria muito envolvido no discurso habitual de tais lugares televisivos. 

Lá para o fim do Atual, é Maria Filomena Mónica a entrevistada. É a segunda entrevista sobre o tema, esta semana, a primeira foi ao Diário de Notícias, salvo erro. A socióloga pronuncia-se sobre o estudo que fez da escola pública portuguesa e dá a sua perspectiva, em estilo provocador e exuberante, como lhe é próprio. No terreno, já se ouviram algumas observações defensivas sobre o assunto, sem que ninguém tenha lido o livro. Nesta casa, também não se leu, mas das entrevistas não veio matéria para surpresas. As palavras de MFM retratam alguma realidade, ainda que aqui ou ali se saliente aquilo que é apenas o extremado. Mas, antes de outras considerações, é melhor ler o dito livro e fundamentar a opinião.   

Ressalva-se apenas estas passagens, para as cotejar com uma outra de Rentes de Carvalho:

"(...) As classes médias devem manter os filhos nas escolas públicas não só pelas escolas como por eles. Se uma escola pública tiver um terço das crianças das classes médias melhora, porque os pais das classes médias são mais articulados e reivindicativos. Por outro lado, manter os meninos dentro de um aquário onde só conhecem meninos iguais a eles castra-os. A diversidade da natureza humana é benéfica." (p. 44)

"(...) pela primeira vez desde Afonso Henriques há mobilidade social descendente. Muitos dos que hoje vão para Angola, há 40 anos teriam sido colocados nas empresas dos «tios» pelos pais. Esta mobilidade descendente é um fenómeno totalmente novo. Não está estudado, mas pela minha evidência empírica está de facto a acontecer. E é bom que aconteça: primeiro, porque as classes altas portuguesas não davam muito valor à cultura; segundo, porque estes meninos não tinham de competir ou apenas competiam entre «primos» e «primos». Portugal continua a ser o país mais desigual da União Europeia, mas já começa a ver alguns filhos das classes trabalhadoras a ascenderem. Isso é bom." (p. 44) 

E, agora, o escritor transmontano:

"(...) As elites portuguesas nunca foram consistentes. Ou só foram num aspecto: o do ganho pessoal. Eu vivo na Holanda, um país rico, mas com um sentimento social muito desenvolvido. As pessoas que têm fortuna sentir-se-iam envergonhadas se não contribuíssem de alguma maneira para a sociedade, apoiando um museu, uma orquestra, uma escola, seja o que for. Há uma solidariedade, mesmo em relação ao anónimo que sofre em qualquer parte de África, que eu nunca vi em Portugal. Costumo dizer que no Museu das Janelas Verdes só há arte que foi roubada dos conventos, mas não há nada oferecido pelas famílias ricas, que, podendo contribuir para o bem comum, nunca o fizeram. (...)" (pp. 8-9)

Que tristeza! Só Tolentino Mendonça para elevar o ânimo:

"(...) a primavera faz de nós testemunhas da revitalização do mundo. Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por um processo de rejuvenescimento." Revista (p. 6)

Citações do Expresso de 22/03/2014, as primeiras do suplemento Atual, a última da Revista (J. Rentes de Carvalho: "Voltar a Abril" - entrevista de José Mário Silva; Maria Filomena Mónica: "Má escola" - entrevista de Cristina Margato. J. Tolentino Mendonça, "Que coisa são as nuvens: primaverar").

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lendo, em dias de espera

Em dias de pausa pascal, lê pela primeira vez José Rentes de Carvalho - La Coca. Leitura agradável: o tráfico na aldeia,  as memórias de adolescência, um olhar amável e triste...

"Agora na torrezinha, deitado de costas na cama, embalado pelo bater das cordas de água que o vento atira contra as paredes, revivo esse tempo com a tolerância de quem tem uma vida atrás de si. [...] Nessa altura ri com os outros, sem me dar conta que a vida ao meu redor não tinha a moralidade nem a pureza que eu lhe atribuía.
Havia o mundo visível, calmo, mais ou menos harmonioso, cada um e cada coisa no seu lugar. Dos mundos subterrâneos conhecia eu o do contrabando, do qual pensava que servisse para satisfazer um real desejo de aventura e só acidentalmente tivesse a ver com lucro e ambição. Todo o resto me escapava. Ou talvez não. Talvez eu seja mais exacto, e mais sincero, se admitir que intencionalmente fechava os olhos, receando tudo o que pudesse perturbar o frágil equilibrio que aprendera a manter entre o meu corpo, o meu espírito e a minha imaginação. Uma ninharia poderia transtorná-la, uma palha poderia empurrar-me para os abismos cuja existência eu negava, e assim me comportava como o pior dos cegos: aquele que recusa ver.
Provavelmente residia aí também a causa de a todo o momento me refugiar nos livros, onde criara o universo da minha realidade, encarando o que me cercava como uma desagradável e maléfica ficção." (p. 157)

José Rentes de Carvalho, La Coca: Romance, Quetzal Editores, 2011.