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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

"Servidões" (Herberto Helder)

 
Cine Povero: um vídeo para um poema de Herberto Hélder - "Um quarto dos poemas é imitação"
 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

tempos de servidão


 
dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
 
 
Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

estes míseros ofícios

Ainda há pouco, a A.G. citava Herberto Helder. Que palavras tão lindas e tão conformes:

e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida


Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio, 2013.


 
uma pausa nos tristes ofícios

sábado, 1 de junho de 2013

Herbero Helder

 
Herbero Helder, Servidões,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.
 
 
já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite através da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
 
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada  a nada:
acautela a tua dor que se não torne académica

 
Herbero Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Morituri salutant

 ... vamos fugir de lugares mal frequentados e de palavras inacreditáveis, primeiro a rir e depois a recitar belas orações...


1- Um livro da 1ª classe que não frequentei


2- Uma estampinha da infância

Google images - Nossa Senhora de Fátima


3- Uma oração muito bela
Salve Rainha
Salve, Rainha, mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve.
A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,
bendito fruto do vosso ventre,
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce sempre Virgem Maria
V.: Rogai por nós Santa Mãe de Deus
R.: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


4- Um hino belíssimo

Hino Órfico à Noite
(Grécia)
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.



Herberto Helder, "O bebedouro nocturno", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

 
Hino Órfico à Noite
 
(Grécia)
 
 
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.


Herberto Helder, "O bebedouro nocturno", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

domingo, 1 de julho de 2012

...não sei como dizer-te...

A páginas tantas, um verso magnífico, de Herberto Helder:


Não sei como dizer-te que a minha voz te procura



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Poesia...

 (Índios Comanches, EUA)

Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i nai ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná


Herberto Helder, "Magias", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

sábado, 23 de julho de 2011

Norte/Sul

Não se pode ligar a televisão, não se pode abrir um jornal, que a oposição norte/sul aí aparece, desbragada, acintosa, a destilar xenofobias, preconceitos culturais e cromáticos q.b. Não se suporta. Auscultando memórias, folheando livros amados, a leitora procura outros olhares sobre o diverso. O livro eleito intitula-se As Magias, de Herberto Helder, mas o seu paradeiro é incerto. Apesar disso, foi possível recuperar o poema desejado, que aqui se apresenta, com o intuito de lembrar outras possibilidades da diferença entre o Norte e o Sul.


- Figos -

(D. H. Lawrence)

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando no pendúculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida, desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo sá aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é uma fruta feminina.

Os italianos apelidam de figo os orgãos sexuais da fêmea:
A fenda,  o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.

O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.

Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.

Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre secreta.

Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules húmidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.

Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,*
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e íntima,
Fruta do mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando a alma.

Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.

O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.

Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura
Como uma  ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.

Assim também morrem as mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.
Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.

Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.

Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.

Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas ecarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?

*Requeijão.

Herberto Helder, "As Magias", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

sábado, 30 de abril de 2011

Leituras de sábado: Luísa Dacosta e Herberto Helder

Busca

Procuro a palavra,
a de sílabas de luz,
que inteira nos revelaria.
Impossivelmente, busco
a nunca encontrada.
Embrionária e prisioneira,
dorme para todo o sempre
no seu ovo de silêncio.

Luísa Dacosta, A Maresia e o Sargaço dos Dias


Claro, considerávamos importantes essas palavras da linguagem, essas palavras comuns. Excitadas como matilhas, boas para caçar, farejar, ladrar, matar. Mas há outra língua, que falávamos antes de nascer. Uma língua muito antiga, não servia para nada, não era  a língua do comércio com os homens. Não era decerto uma língua de sedução, para subornar ou para dominar. Dela provinham as palavras, estas palavras: fluídos, vento, bilha, órfã, carris, dormir, coração, constelada, cisne, lasciate, vapor, contorno, opala, vem... Existiam ao mesmo tempo que a vida, não desligadas dela. Eram uma dança, uma natação, um voo, eram movimento.

Herberto Helder, Magias


- O coração -

(Stefan Crane)

No deserto,
vi uma criatura nua, brutal,
que de cócoras na terra
tinha o seu próprio coração
nas mãos, e comia...
Disse-lhe: «É bom, amigo?»
«É amargo - respondeu -,
amargo, mas gosto
porque é amargo
e porque é o meu coração.» 
Herberto Helder, Magias