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segunda-feira, 15 de abril de 2013

A propósito do novo manual de Filosofia: "Razões de Ser - 10º Ano"

António Correia Lopes, Pedro Galvão e Paula Mateus,
Razões de Ser - Filosofia 10º Ano, Porto, Porto Editora, 2013.


Aproxima-se a época de escolha de manuais escolares. Este ano não há escolhas para Português (no ensino secundário, bem entendido), mas nem por isso fica a leitora e professora indiferente a estes instrumentos de trabalho, que têm o poder de facilitar ou de dificultar grandemente o decurso das aulas.
Neste sentido, foi com interesse que se deparou com o livro de Filosofia atrás mencionado, ainda que o respectivo conteúdo esteja longe da sua matéria. Apreciou, desde logo, a sobriedade do volume, equilibrado no cromatismo, nos diferentes tipos de letra, na alternância entre o discurso dos autores do manual (predominante), o dos filósofos e as diferentes tipologias de questões e de actividades, devidamente marcados. Destes aspectos gráficos, destaca-se a justeza das imagens, pertinentes e referenciadas no corpo do texto. Na secção dedicada à estética - "A dimensão estética: análise e compreensão da experiência estética" -, é bem evidente este uso adequado e educativo da imagem, correspondendo as reproduções a obras tão diversas como o David, de Miguel Ângelo, O Café Nocturno, de Van Gogh, a Fonte, de Duchamp, As Meninas d' Avignon, de Picasso, uma capa de As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, ou uma paisagem crepuscular de um qualquer fotógrafo kitsch, digo eu. Assinala-se, ainda, a correcção e elegância da escrita deste manual. O livro em consideração, contudo, não está isento de mácula. Ela está presente nos separadores das várias secções, tão distantes da elegância das restantes páginas! Imagino que estas ilustrações correspondam a qualquer imposição da editora, considerando o contraste com o conjunto do compêndio e considerando a recorrência deste tipo de desenhos nos vários manuais da Porto Editora, como, por exemplo, nos manuais de Português. Dispensava-se.
As ditas ilustrações, aliás, parecem corresponder a uma tendência verificada nesta e noutras editoras de manuais escolares para infantilizarem os alunos. A bonecada é muita, assim como infinda é a procura de frases curtas e de textos igualmente pequenos. Compreendo que, por vezes, custa elevar o discurso e a qualidade da matéria de ensino, mas também acredito que esse é o dever do professor, e dos manuais, claro. Acresce que, não raro, os jovens correspondem ao que lhes é pedido; quando isso não se verifica, pelo menos ficam a saber que há mais mundo para lá do seu contexto restrito.
 
  


Ao longo da minha carreira, trabalhei com dois manuais que correspondiam ao que considero um bom instrumento de trabalho, facilitador da aprendizagem e do crescimento cognitivo e emocional dos Meninos: a Antologia (Garrido et alii, Antologia: 10º Ano, Lisboa, Lisboa Editora, 2003 - revisão científica de Paula Morão) e a Sinfonia da Palavra (Gomes e Baptista, Sinfonia da Palavra 7, Porto, Edições Asa, 1992- supervisão científica de Vítor Manuel Aguiar e Silva). A Sinfonia da Palavra foi mesmo o meu livro de sonho. Excelentes os textos, interessante a relação entre eles, óptimos os desenhos, ainda melhor o espaço livre das páginas! Tão longe.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Ilha dos Amores

Para reflectir, com vista à compreensão de Os Lusíadas, estes recortes de um excelente texto de Vítor Manuel de Aguiar e Silva:

"[...] Na Ilha dos Amores, nos seus esponsais simbólicos com as ninfas e com Tétis, alcançam o apogeu da sua ascensão divinificatória os «barões assinalados» que acabavam de perfazer um dos grandes ciclos - não o ciclo supremo, como adiante diremos - da missão ecuménica do povo português. [...]"

"Nesta perspectiva, a empresa dos descobrimentos e o seu clímax, a viagem de Vasco da Gama em demanda da Índia, constituem a continuação, o prolongamento e a glorificação de uma hsitória que, desde há muito, vinha sendo urdida e de que tinham sido, eram e seriam agentes os guerreiros, os nautas, os missionários, os mártires e os sábios cujas figuras perpassam, quer sob a forma de narrativa, quer sob a forma de profecia, nos cantos de Os Lusíadas. E assim recobra plenitude de significado o próprio título do poema, pois o herói exaltado é efectivamente a totalidade concreta e orgânica de uma comunidade, visionada e glorificada na inconsútil urdidura do seu destino histórico, e não tão-somente cantada na crónica avulsa dos seus heróis e dos seus feitos. "  [Esta passagem foi retirada de uma citação mais longa que Aguiar e Silva faz de um estudo seu anterior a este - "Significado e estrutura de Os Lusíadas", Lisboa, 1972.]

"A missão ecuménica deste povo eleito, cumprida ao longo dos séculos por obscuros obreiros e por claros heróis, não culmina nem se esgota com a glorificação proporcionada aos mareantes lusitanos na Ilha dos Amores. O ciclo supremo dessa missão, coroamento e revelação cabal do sentido da história da comunidade lusíada, realizar-se-ia, segundo vaticina e anela Camões, num futuro próximo, quando el-rei D. Sebastião efectivasse enfim, em plenitude, o ideal cruzadístico que animou e guiou, como autêntica superestrutura ideológica, o Estado e o escol intelectual da Nação portuguesa no século de Quinhentos:"

"No texto de Os Lusíadas, este ciclo supremo do destino de Portugal apenas poderia figurar como desejo e profecia; no texto do acontecer histórico, escrito seis anos após a publicação da edição príncipe da epopeia, ficou assinalado como uma tragédia nacional... Os germes da decadência vinham corroendo desde há muito a grandeza material e moral da Pátria lusíada. Camões, embora comungando ardorosamente nesse sonho de cruzada e de império que soçobrou nos areais de Alcácer-Quibir, permanecia de mente bem lúcida para se dar conta, angustiosamente, dos sinais de decadência que estigmatizavam já o corpo e a alma da Nação."

Vítor Manuel de Aguiar e Silva, "Função e Significado do Episódio da «Ilha dos Amores» na Estrutura de Os Lusíadas" in Camões: Labirintos e Fascínios, Lisboa, Cotovia, 1994.