Chegou a casa acompanhada de um tom desarmonioso. A crise lá fora, o desconforto dentro da sua alma, um gosto amargo a quotidiano a rasgar a boca. Mas, felizmente, há palavras que oferecem bálsamos - as sugestões e partilhas de Um jeito manso, a vivência da poesia, alma e corpo, duas faces da mesma vida.
Foi assim que se lembrou de Maria do Rosário Pedreira e das mais belas palavras: casa, livros, perfume, amante, silêncio, noite, aves, corpo, genciana, flor de laranjeira, o teu nome suave, voo...
Contam que as sombras permanecem agora mais tempo sobre
as dunas e que a flor de laranjeira rebentou pelos caminhos,
encantando as viagens; que os morangos crescem, se os dedos
se aproximam, e que já se ouve, ao longe, um rumor de asas
contrário a qualquer vento. Falam de um perfume estranho
que paira pela cidade e das palavras soltas que os rapazes
andaram a escrever pelos muros em segredo. E eu não sei nada
disto que me contam, nem me aquece a luz quente que,
como dizem, afaga de manhã os ombros de quem passa e vai
a outro lugar sentir o mesmo lume. E eu também já não sinto
a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite
à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-me
dos gatos. Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.
Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros, Lisboa, Gótica, 2002.

Eu que amo as palavras, agora, ao ler este seu texto, fiquei sem elas. Muito obrigada, Leitora.
ResponderEliminarE fiquei sensibilizada (mesmo!) por me juntar no texto à lembrança de Maria do Rosário Pedreira de cuja poesia tanto gosto. E este poema, Leitora, que belo que é. Ir dormir lá fora com as aves, que boa ideia, quem me dera.
Muito lhe agradeço.
E anime-se, afaste o desconforto de dentro da sua alma. A alma quer-se atapetada, com fofas almofadas, bem quentinha, aconchegada em palavras de harmonia. 'Deixe que a luz quente lhe afague os ombros' amanhã.
Um beijinho, Leitora.
Eu é que agradeço.
ResponderEliminarUm abraço grande! Um Bom Dia!