CREPUSCULAR
Ha no ambiente um murmurio de queixume,
De desejos d'amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.
As madre-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exhalam pelo espaço
Tem deliquios de goso e de cançaço,
Nervosos, femininos, delicados.
Sentem-se spasmos, agonias d'ave,
Inaprehensiveis, minimas, serenas...
Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.
As tuas mãos tão brancas d'anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.
Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).
Camilo Pessanha, outro exímio mestre da palavra. E como os tempos eram... a anemia, a tristeza, como factores de encantamento. Tem graça.
ResponderEliminarSobre Camilo Pessanha não temos dúvidas: a essência da poesia, a pura beleza! Inscrita no tempo, no seu tempo, no nosso, de todos os tempos...
ResponderEliminarBom fim-de-semana!
Ah, Leitora, que bom: eu que gosto tanto de Pessanha sinda gosto mais de o ler assim na edição do Paulo Franchetti, com agrafia anterior ao acordo de 1911.
ResponderEliminarA grafia... parece que esta está mais próxima da poesia de Pessanha...
ResponderEliminarAinda bem que gostou. Seja muito bem-vinda!