"[...] E olhou-se longamente, o
corpo lunar, ligado ainda a uma flexibilidade de junco – haste solitária na
água do espelho. Apelando a quê? Aos desejos que aquele beijo tinha acendido e
ela quisera que tivesse pertencido a outro, ao desconhecido, que se espera e
fantasia, para libertá-la daqueles sopros de incesto? Ficaria a sua imagem
presa no espelho? Quem a encontraria para lá do tempo? Quem para adivinhar o
peso dos seus cabelos negros, presos nos ganchos de tartaruga? Aquela trança a
cingir-lhe o rosto, como um diadema negro? O voo, inquieto, das sobrancelhas,
desenhadas a pincel? Aquele luar de seda e camélia do seu corpo, quem viria
sabê-lo?
[...]
Para além da janela, a noite eram braçadas de luz,
de imensas constelações sem nome que não podia abarcar, embora desejasse
incorporá-las a si. Fechou as portadas de madeira, tentando ensurdecer o
perfume da laranjeira e, exausta, deitou-se sobre a cama. Desejava uns lábios
que a percorressem, lhe bebessem a boca e o sexo, lhe fossem manto de ternura,
sobre a pele. Desejava umas mãos que lhe desenhassem a linha do corpo, lhe
corressem os flancos, quebrados, e a cingissem, fortes. Desejava um rosto que
se lhe afogasse entre as magnólias dos seios, que a procurasse e lhe fizesse
nascer pássaros no sangue e apagasse aquela violação do marido, que não a
conhecera, lhe não soubera o corpo, que se cevara, brutal, no próprio desejo,
saciando-se rapidamente e afastando-se dela, depois de lhe ter acendido anseios
que agora não controlava. Sentia dentro de si uma pulsão, sequiosa, de água, a
abrir-lhe a anémona do sexo em pétalas carnudas e vorazes, um desejo de potro
jovem, incontentado, um sangue selvagem de astros que ceifavam a noite, a
fogo...
O seu corpo nu
era uma haste latejante, que se oferecia, caída na solidão de caminhos, que não
viriam a ser cruzados.
Coração de
romã, o desejo crepitava no silêncio e na ausência.
[...] O
silêncio parecia acumular-se como uma poeira sobre tudo, em camadas. Sentia-se
afogada naquela quietude, como num mar, e os cabelos, que a trança cingia, era
como se estivessem soltos e flutuassem na ausência de sons, algas numa corrente
marinha. A sensação era tão opressiva como se fosse realmente a afogar-se,
perder-se em águas insondadas, respirando pela última vez, sabendo-se a descer,
impossivelmente, a uma profundidade irremediável que a ia submergir. Sentia que
se afogava na própria solidão, ao mesmo tempo que um desejo, que espiava essa
solidão, crescia dentro dela, tomando-a, desde a raiz do sexo à vibratilidade
dos nervos."
Luísa
Dacosta, O Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, Lisboa, Quimera, 2000, pp. 48-50 e 56.
Que
beleza!
Mergulhar e ser feliz.
Mergulhar e ser feliz.
Uma coisa quase excessiva, daqueles em que quase consigo avançar na leitura, fico presa, agarrada às palavras.
ResponderEliminarAndei na Fnac à procura deste e do outro, o da Paula Mourão, e não encontrei. Se calhar terei que encomendar ou ir à Bertrand. Espero que não sejam daqueles de edições pequenas que esgotam e azarinho para quem vem depois.
Fico muito contente que tenha gostado!
ResponderEliminarNão é fácil encontar estes livros, não, mas não estão esgotados. Acabo de ver que estão disponíveis, por exemplo, em www.wook.pt.
Boas leituras!
Tem graça que vejo muito este site e nunca me tinha lembrado de recorrer a ele para comprar livros. Habituei-me à Fnac e sou um verdadeiro animal (de hábitos, claro).
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