o fim da noite
ela guardava os sentimentos
como um animal ferido que se agarra
à vida por de dentro
e a vai perdendo devagar
enquanto sangra e sofre
emudecendo.
então beijavas-lhe
os seus próprios gemidos, a sua
desolada liberdade, o que no seu
olhar se enevoava.
não lhe peças mais nada,
não lhe digas
mais nada, mas não deixes
que a noite tome conta dela e
dite as suas leis.
meu amor, meu quente marulhar
meu amor, meu quente marulhar das águas ancestrais,
meu alvoroço terno das manhãs, há um vaporzinho no ar,
percorro a linha fina do teu corpo, o seu desenho ainda ensonado,
e és para mim toda a realidade nesse instante.
há roupas, sim, roupas que vais vestindo, algum creme que pões,
uma cama desfeita, um leve baloiçar das árvores lá fora
e o sol de inverno a alastrar nas vinhas.
Vasco Graça Moura, poesia reunida, Vol. 2, Lisboa, Quetzal, 2012.
Um belo poema. Vasco Graça Moura tem poemas magníficos. Estes dois livros são preciosos.
ResponderEliminarUm beijinho, Leitora.
Também gosto muito da poesia de Vasco Graça Moura. É um caso em que a figura do autor nem sempre agrada, mas a obra poética ultrapassada qualquer preconceito. Ando a ler esta antologia e os poemas reunidos são ainda mais comoventes do que um a um, aqui e acolá.
ResponderEliminarUm beijinho e Bom Fim-de-semana!