"Umas mãos longas, frágeis e inquietas, como raízes fora de terra, arrastadas pelo vento corriam-lhe o rio do corpo. Devagar. Sentia-lhes não o peso, mas a fragilidade quase feminina. Enconchavam-se-lhe nos joelhos e faziam um parapeito, solto e aberto, à flor dos seios. Invenção ou desejo? Devagar recomeçavam. Devagar. A polpa quase liquefeita dos dedos, deslizava ao longo dos braços, das pernas, arrepiando-lhe a carne com um sopro, quente, vago, que bicava a ponta dos mamilos e entumescia o ninho do sexo. Que sugava, como boca sôfrega, todas as papilas da pele, chamando-as a uma sensação táctil, corrida, como que brincada e apenas lúdica.
Se abrisse os olhos tomaria consciência do espaço, do tempo, do lugar, das mãos. Obstinava-se, porém, na quietude dos olhos fechados, prolongando aquela sensação de ter o corpo suspenso sob uma lubrina de desejo. Nenhuma boca viria. A adolescência não seria reinventada. Não haveria promessas de pássaros e madrugada. Subjacente havia essa certeza. Demasiado consciente, tesoura lúcida, a cortar o fio do sonho.
Na cama apenas um corpo. Abria os olhos à manhã que clareava, que tornava mais caiado o branco das paredes e a fechava no búzio do quarto.
O rolar das ondas trazia até ali um choro do solidão."
Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1980.
Belíssimo texto. As mulheres escrevem textos assim, vindas de dentro do corpo - Luísa Dacosta, Gabriela Llansol, Clarice Lispector.
ResponderEliminarApetece ficar a olhar, decorar as palavras.
Ainda bem que gostou. É tão intensa a escrita destas mulheres. Clarice Lispector conheço menos, mas vou procurar alterar esta situação, até pelas referência que lhe tem feito.
ResponderEliminarA força deste texto é, de facto, imensa. Sabe que suscitou algumas estranhas reacções, que me levaram a "temer" pela minha respeitabilidade ou pelo decoro deste blogue?!
Sabe, Leitora, são as pessoas capazes de suscitar reacções que são interessantes. A luísa Dacosta ao escrever, a Leitora ao divulgar - pessoas interessadas e interessantes.
ResponderEliminarO corpo existe e tem voz e isso é natural e saudável. Ser capaz de nomear a voz do corpo não está ao alcance de todos, pelo que todo o mérito deve ser reconhecido a quem o consegue. Se ainda por cima, o sabe fazer com uma sensibilidade inteligente, com uma sábia escolha de palavras, então, é caso para festejar - jamais para condenar ou censurar.
A respeitabilidade e o decoro que interessam são os da própria consciência e os do próprio carácter.
De resto, que siga a carruagem porque sorte têm os que vão lá dentro.
Continue, Leitora, com as suas excelentes escolhas, com os seus interessantes textos.
E tenha um belo fim-de-semana. (com o AO já nem se deve escrever assim, com tanto hífen, não...?)
Muito obrigada pelas palavras de incentivo!
ResponderEliminarA literatura continua a tocar o humano, digam o que disserem, mesmo os que percorrem outros caminhos... Ainda Bem! Vou seguir o seu conselho e prosseguir a divulgação das minhas leituras. (Até porque gosto de provocar reacções, se forem a bem do esplendor da língua e da grande literatura...)
Bom fim-de-semana!
(Parece que agora já não leva hífen. Já nem sei escrever! Abaixo o AO!!!!)