terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Esplendor da Língua

A-Ver-O-Mar


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas - Deste livro, retirei um excerto belíssimo, um dos mais belos da língua portugesa, que apresento, depois da imagem:

(Imagem retirada da internet - Autor desconhecido)

"Ao largo distancia-se um navio e leva minhas raízes dolorosas. Para longe seja! Corta e alivia saber que, em pedaços, me rasga o vento. Que pelo ar se espalham, se rompem, se esgarçam noites cegas de tanta solidão. Que no voo do tempo, cruzado pelo voo ignorante das aves, se desfolha e desprende a minha impetuosidade quebrada contra as pedras e os gelos, lembranças sidas, o que me foi e fui: vozes sem rosto, rostos sem direcção de olhar, bocas sem contorno, mãos vazias, gestos sem sentido. Assim me parto de mim, no sangue ainda o cimento das paredes, a liberdade rasgada das janelas, nos olhos este volume de azul crispado de espumas. Num desgaste lento, igual ao das águas, que transformam náufragos e destroços em flores de maresia, o vento me rasga e me soluça. Até ao fim das luas e das galáxias me soluçará, porque não chorei, infinitamente, aquela chuvosíssima dor que me foi ensombração e nuvem.
A concha vazia e já sem eco do meu corpo sobrevive-me numa ausência que, implacável, desce - e o silêncio margina e prolonga indefinida.

Na noite, na palma da noite - abandona-se um corpo. Fruto ardente de estreitos flancos, delta e rosa dos ventos, abre-se ao frio nocturno e ao sémen das estrelas. Seu coração, como os fósseis dos lírios da montanha sepultos nos abismos, repousa onde florescem corais e palmas de gorgonas. Ofélico, mítico, as magnólias dos seios ceifadas pelo cutelo da lua, no entrechoque das ondas, adormido, ondula, quase respira, frente à enseada. As águas o submergem, o luar o afirma, o vento o fantasmisa e o torna irreal. Flor de sonho e ausência, as centáurias hão-de sugar-lhe a fonte profunda do sexo, por um bosque cerrado defendida. E na madrugada, pétalas ósseas dos jardins do mar, o recolherão nas suas corolas esparsas."


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar: Crónicas, Porto, Figueirinhas, 1980.

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