sexta-feira, 11 de abril de 2014

Escárnio e maldizer


Procurava uma cantiga de escárnio e maldizer apresentável, isto é, que pudesse ser dita em qualquer salão requintado, mas as dificuldades foram grandes, pois as obscenidades, a virulência e até a violência são frequentes. Encontrei duas: uma paródia ao amor cortês e "um malicioso quadro de amores campestres" (Graça Videira Lopes, p. 446). De qualquer modo, são lindas, estas e as outras, cuja leitura recomendo.


Quer-mi a mi ũa dona mal
como se lhi quisess'eu bem, 
por que houvesse por mi mal 
ou eu por ela algum bem; 
pois lh'eu nom quero mal nem bem, 
por que mi há ela querer mal? 

Colheu comigo desamor 
como se lh'houvess'amor eu, 
por que houvesse desamor 
d'alguém por mi ou amor eu; 
Non'a desamo nem am'eu; 
ela por que mi há desamor?


Gil Peres Conde 

Esta cantiga é o que poderemos designar por escárnio de amor, paródia ao universo do amor cortês, a partir de alguns dos seus clichés. Aqui a tradicional má-vontade da senhor em relação ao trovador não passa de um equívoco, uma vez que ela, neste caso, lhe é totalmente indiferente. [...]
3 per que - como se. 6 = há-de. 9-10 Os versos não são totalmente claros. Deverão ser, de qualquer forma, paralelos aos vv. 3-4 e o seu sentido será: como se, por causa de mm, alguém não gostasse dela, ou como se eu a amasse.



- Maria Genta, Maria Genta da saia cintada, 
u masestes esta noit'ou quem pôs cevada?
Alva, abríades-m'alá!

- Albergámos eu e outra [e]na carreira,
e rapazes com amores furtam ceveira.
Alva, abríades-m'alá! 

- U eu maj'aquesta noite, houv'i gram cea,
e rapazes com amores furtam avea.
Alva, abríades-m'alá! 


Rui Pais de Ribela

Notável cantiga dialogada que transforma subtilmente uma alba num malicioso quadro de amores campestres. É muito provável que se tratasse novamnete de uma cantiga de seguir. Repare-se que o lindíssimo refrâo («abria-se-me a alva ao longe»), na sequência do corpo das estrofes que descrevem a orgia nocturna, ganha um sentido irónico (e erótico), totalmente diferente do que teria na cantiga original.
1 É possível que Genta não seja um apelido, mas esteja no sentido de «gentil», como aparece, por exemplo, no Lais de Leonoreta Senhor genta...»). 2 masestes - pernoitaste. 2 ou quem pôs cevada - a expressão não é evidente. A cevada era um alimento para os criados e os animais. O sentido talvez seja, pois, «quem pagou a festa?», vindo a resposta na segunda estrofe (foram os rapazes com os seus roubos). Sigo a interpretação de Barbieri, o editor mais recente do trovador. 4 carreira - caminho. 5 ceveira - espécie de cevada para a alimentação do gado.

Os textos e as notas foram retirados do seguinte livro:

Graça Videira Lopes (ed.), Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses, Lisboa, Editorial Estampa, 2002.


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