sábado, 7 de maio de 2016

Comecei a ler o romance Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes, e não consigo deixar de pensar na ilha de Böcklin, seja pela paisagem, seja pela ideia de exílio (a ilha de Santa Helena foi o lugar de exílio e morte de Napoleão), seja pela aproximação de Anna W., a protagonista que o narrador imagina "com a aparência, a voz e as maneiras da actriz sueca Alicia Vikander" (p. 19).

Arnold Böcklin, A ilha dos mortos, 1880.
Eis algumas referências a Santa Helena, para já muito informativas e sugestivas: 

"[...] Mas, como não sabe quase nada de Santa Helena, é-lhe impossível relacionar aquilo que vai sentindo com os sentimentos de todos os viajantes que a antecederam e deixaram disso registo escrito.
Anna W. sabe que a ilha foi descoberta pelo navegador português João da Nova em 1502, que os portugueses a utilizaram durante muito tempo como ponto de aguada ou reparações na viagem da Índia, e que o primeiro habitante de Santa Helena - e, ao mesmo tempo, o primeiro Robinson Crusoe da história da expansão europeia - foi um português, Fernão Lopes, cuja história extraordinária, contada por fontes portuguesas do século XVI, daria um filme esplêndido, assim houvesse um realizador com capacidade para enfrentar o horros e a solidão de algumas vidas, os seus momentos de alívio e desespero, a maldade e a bondade dos seres humanos.
[...]
Atente a leitora ainda em fontes de outro género: as imagens e gravuras datadas do final do século XVIII ou do princípio do século XIX. Existem dezenas de gravuras e desenhos de Santa Helena vista do mar. Têm um aspecto em comum, a representação da ilha como um conjunto de falésias como que mergulhada no oceano em diagonal, camadas e mais camadas de lajes de um tamanho sobre-humano, paralelas e inclinadas, separadas umas das outras por veios ou enclaves profundos e virados ao céu com a expressividade agressiva de uma dentadura de crocodilo."

Paulo Varela Gomes, Passos Perdidos, Lisboa, Tinta da China, 2016, pp. 22-24.


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