domingo, 1 de julho de 2012

Da nudez



Helmut Newton, "They are coming"
(Díptico publicado na Vogue, em Novembro de 1981)

Sobre estas fotografias e sobre a nudez, escreve Giorgio Agamben:

"O efeito singular produzido pelo díptico é que as duas imagens são, contra todas as aparências, iguais. As modelos envergam a sua nudez exactamente como, na página ao lado, envergam as suas roupas. Embora não seja verosímil atribuir-se ao fotógrafo uma intenção teológica, o certo é que o dispositivo nudez/veste parece ser aqui evocado e, talvez inconscientemente, posto em questão. [...] E a equivalência entre as duas imagens é ainda aumentada pelo rosto das modelos, que, como convém a rostos de manequins, exprime a mesma indiferença entre as fotografias. O rosto que, nas figurações pictóricas da queda, é o lugar em que o artista manifesta a dor, a vergonha e o pavor dos caídos (pense-se, para citarmos apenas um exemplo entre todos, no fresco de Masaccio na Cappella Brancacci, em Florença), adquire aqui a mesma inexpressividade gélida, já não é rosto.
Seja como for, é um aspecto essencial que [...] a nudez não tenha tido lugar. É como se a corporeidade nua e a natureza caída, que funcionavam como pressuposto teológico da veste, tivessem sido ambas eliminadas e o desnudamento já nada tivesse, por isso, a desvelar. Há somente a veste da moda, isto é um indecidível de carne e pano, de natureza e de graça. A moda é a herdeira profana da teologia da veste, a secularização mercantil da condição edénica pré-lapsária."

Giorgio Agamben, "Nudez" in Nudez, Lisboa, Relógio d'Água, 2010.


[E se as modelos, na primeira fotografia, estivessem descalças e sem depilação? Por que razão o fotógrafo não pôde dispensar os sapatos?]

2 comentários:

  1. Olá Leitora Andarilha,

    Como sabe, Helmut Newton é um dos fotógrafos que muito aprecio.

    E esta fotografia, marcante na sua carreira e aqui, muito justamente, recordada por si, é daquelas que marcou uma época: as mulheres a afirmarem-se sem rodeios, sem evangelismos, sem romantismos, sem pudores.

    O reverso da fotografia em que aparecem nuas, mostra-as iguais mas com roupas mas olhamos e vêmo-las iguais, ou seja, as mulheres com uma identidade própria, sejam quais forem as vestes que envergam (mesmo que não as enverguem de todo).

    Quanto às suas perguntas, a minha opinião é que uma coisa é uma pessoa tal como vem ao mundo (adequada portanto a frequentar espaços de naturismo) e outra, bem diferente, é estar apresentável para se apresentar em público (para o que estar depilada, maquilhada e de saltos altos é fundamental; a roupa, como Helmut Newton provou, é secundária...:)).

    Um beijinho, Leitora e tenha uma inspirada semana!

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  2. Interessante o que selecciona para que uma mulher esteja apresentável: estar depilada, maquilhada e de saltos altos... Na verdade, não está nua, e tem os adereços, digamos assim, típicos de uma mulher; a feminilidade em poucos traços...

    (Vou reflectir u pouco mais sobre as questões da nudez e da veste... Entretanto, vou procurar outras imagens de Helmut Newton; já vi algumas no seu blogue, que dão que pensar.)

    Um abraço

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