segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

... continuarei a buscar, a escutar e a esperar...*

 
O Natal começa no início de Dezembro, quando se enfeita a Árvore e se alinda a casa com os ornamentos próprios da época; termina em Janeiro, no dia de Reis, quando as casas amanhecem com corações pintados nas paredes (amanheciam...). Era assim; ainda é um pouco, que as tradições não se vão completamente, ficam sempre restos, sinais de afectos e ligações.
 
Este ano, três contos de natal estiveram sempre presentes, através da leitura ou da reflexão:
 
- Eça de Queirós, "Suave milagre" in Contos (Anagrama);
- Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares (Figueirinhas);
- Luísa Dacosta, "Os magos que não chegaram a Belém", in Natal com Aleluia (Asa).


 




O que nos dizem estes textos?
 
O primeiro não nos fala do mistério do nascimento, revela-nos, sim, o deslumbramento da palavra e da obra de Jesus, tão procurado, mas só visto por "aqueles ditosos que o seu desejo escolhia"; neste conto, surpreendentemente, um desses escolhidos é uma frágil criança, acompanhada só de sua mãe, da dor e da esperança.
 
O segundo, segue a tradição dos Reis Magos - Gaspar, Melchior, Baltasar - para nos propor a redenção, a fraternidade e a busca de um deus que a todos proteja, pois todos, a um tempo, somos "humilhados e oprimidos":
 
"- Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore.
Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam:
- Desse deus nada sabemos.
*
Naquela noite, o rei Baltasar, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse:
- Senhor, eu vi. Vi  a carne e o sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?"
 
O terceiro conto liberta os Magos do peso do ouro, das ricas oferendas, do poder e da fama e mostra-nos três homens bons, "magos, sacerdotes que estudavam o céu e os seus astros". Três homens, entre muitos, que não chegaram a Belém e que não figuram no presépio: "Há sempre os que conseguem e os outros. Os que ficam pelo caminho." Estes magos regressaram à sua terra, a fim de protegerem um menino abandonado que encontraram numa escura gruta, escolhendo o difícil caminho da desistência de objectivos traçados, ainda que pelos melhores motivos, os que se enraizam no amor. Todavia, não o fizeram sem protestação:
 
"- Regressar?! E a Luz que vínhamos a seguir? - protestou o mais novo, para quem era doloroso, depois de tantos trabalhos e canseiras, não levar a cabo o que se tinha proposto. - Desistimos assim da Luz que nos guiou até aqui? Desistimos, agora, quando estávamos tão perto?
- Compreendo o que sentes, irmão, também já fui novo... Mas há a criança. Como poderemos abandoná-la?"
 
Boas leituras a fechar o Natal...
 
(* do conto de Sophia supracitado)

2 comentários:

  1. Olá Leitora,

    Grandes contos! Gostei. E grande visual. Tem o toque de surrealismo que tantas vezes está subjacente às suas escolhas. E gosto do tom do fundo. Está muito bom. Parabéns.

    (E eu também prefiro a resistência à resiliência pois a resiliência pressupõe uma capacidade de adaptação e eu digo 'adaptar-me a isto, o tanas!').

    Um beijinho, Leitora Mutante.

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  2. ! Ainda bem que gostou. Também me sinto confortável com estas cores...

    Achei muito interessante a sua referência ao surrealismo. Aprecio muito esta estética; eu própria vislumbro em mim algumas nuances surrealistas, mas as outras pessoas não costumam considerar assim, pelo menos as que não me conhecem bem ou que, conhecendo, não têm muita imaginação (ups!). Pois, terei um certo sentido de humor negro ou gosto em encontrar outra perspectiva, que alguns considerarão camsativo ou incompreensível. Em geral, sou considerada uma "certinha" (chatinha?). Enfim.
    Gostei muito do seu comentário. É bom sentir-me escutada.

    Um beijinho, Um jeitinho manso!

    :)

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