quarta-feira, 27 de abril de 2011

O Esplendor da Língua III

Luísa Dacosta - entre memórias e afectos

"Não foste tu a lançar a aliança de oiro, rito que devia garantir-me felicidade para todo o sempre, na água do meu primeiro banho. Já então estavas morta. Fechada na bruma doutras idades. Eras menos que o impalpável perfume que desprendiam teus leques, tuas ligas, tuas enáguas.
Teus dias, longos, presos no fio de intermináveis e complicados bordados? Tuas noites, viúvas, afogadas em jaculatórias? Teus anseios? Tuas revoltas? Tuas penas? Tuas sufocações? Dissolvidas. Pólen, levado pelo vento dos anos. Apenas teu rosto sereno, sobrevivente e morto, olhava com doçura, ferida e dolorosa, o meu rosto que era o teu rosto, a minha boca que era a tua boca, as minhas mãos que eram as tuas mãos.
Ninguém te amou, assim, com a certeza do impossível e do irremediável e tentando, apesar disso, adivinhar-te, recriar teus gestos. A pétala dos teus lábios, porém, não tinha ficado na porcelana rosada e violeta da chávena antiga. A bolsinha com as tuas iniciais A. P. delicadamente bordada pelo salzinho, miúdo, da missanga, flácido coração, esvaído de pulsações, não do peso da melancolia, que ainda se afundava na minha palma, que alvoroços fechara? Memória doutras memórias, vinhas até mim, como balada de que se conhece a música, mas não as palavras. No teu espelho me mirava, com teus ganchos, tuas jóias: os olhinhos-gatos de topázio, a barrette, orvalhada de perolazinhas, o cordão que em voltas de gargantilha, singela, te garrotava o vestido sem enfeites. Mas outras eram as águas do tempo. Só a trama da amargura foi a mesma para ambas. E eu já não tinha os altos muros da quinta para emparedar meus desenganos. E nunca tive o teu regaço para os meus sonos de esquecimento, nunca a tua respiração para bafejar meu tremor, nunca teus dedos para desenguiçar minhas mágoas e meus cabelos.
Em vão te desejei, te sonhei nas trevas. Não vinhas. Limos de distância te impediam, te enleavam, ó diáfana, ó remota, ó para sempre perdida!"

Luísa Dacosta, Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu, Porto, Figueirinhas, 1983, pp. 9-10.

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