sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Temperamentos



Albrecht Durer, Melancolia (1514)


Às vezes não é uma questão de a vida ser boa ou má, é somente uma questão de temperamento. Uns são mais introspectivos e pessimistas, outros mais alegres e abertos ao exterior. Não temos de ser todos positivos, dinâmicos, sociáveis, pelo menos não sempre. A uns quantos coube em sorte esticarem o sofrimento para lá do razoável e gostarem de contemplar o lado escuro dos dias. Que fazer? Esperemos que também possam ver a plena luz do sol e deliciarem-se com isso, mesmo que precisem de um empurrãozinho ou de umas palavras amigas.


Os antigos, que reconheciam a continuidade existente entre o espírito e a matéria, o corpo, a natureza e o cosmos, desenvolveram a doutrina dos quatro humores, que evoluiu para doutrina dos quatro temperamentos, de que se apresenta uma brevíssima síntese nos dois quadros seguintes. Assinale-se que desde cedo as várias designações de temperamentos conheceram significações distintas, pois tanto podiam indicar estados patológicos, como meras aptidões constitutivas dos indivíduos.


   
Temperamento

 Elemento

 Temperatura

 Fluído

 Corpo

 Estação

 Colérico

 fogo

 quente e seco

 bílis amarela

 fígado

 Verão

 Sanguíneo

 ar

 quente e húmido

 sangue

 coração

 Primavera

 Fleumático

 água

 frio e húmido

 fleuma (linfa)

 vasos linfáticos e gânglios

 Inverno

 Melancólico

 terra

 frio e seco

 bílis negra

 baço

 Outono



Temperamento

Planeta

Características

Colérico

Marte

Irascível e impetuoso, ardente, rápido

Sanguíneo

Júpiter

Dado ao convívio e à sociabilidade, sedutor, alegre

Fleumático

Vénus (lua)

Preguiçoso, tímido, sem rancores, calmo

Melancólico

Saturno

Triste, solitário, controlado, capacidade de entrega e dedicação



O termo Melancolia tanto designava uma doença como uma maneira de ser, actualmente prefere-se falar de Depressão quando se trata de uma situação patológica, mas o significado ambíguo não mudou. Ontem como hoje, aconselhava-se o médico a lutar contra a natureza desconfiada do melancólico, a moderar o seu furor e a lembrá-lo das coisas que amava; sugeria-se um discurso sensato e agradável; o consumo de vinhos perfumados, claros e leves, o convívio com a música e outras artes, a companhia dos amigos eram igualmente considerados benéficos; o melancólico devia, também, evitar as tensões mentais, mas a actividade sexual era recomendada, ainda que com moderação. Claro está que a linha agressiva não esteve ausente das tentativas de curar estes seres; de facto, os medicamentos, as purgas, sangrias e flagelações não foram esquecidos. Nos alvores do século XXI, continuamos a ver receituários de ansiolíticos e antidepressivos ou prescrições de actividade física e deleitosa, a par do aconselhamento de acções com vista ao conhecimento e aceitação de si e do mundo. Ler e escrever blogues será também um remédio...

Tendo em vista o tratamento da depressão e da ansiedade, ou tão só do cansaço de viver, recordam-se dois livros de medicina, que não se incluem nos ditos "livros de auto-ajuda":

- Frida Ergas, Viver sem stress, com o método sofrológico, Lisboa, Europa América, 2001.

- David Servan-Schreiber, Guérir le stress, l'anxiété et la dépression sans médicaments ni psychanalyse, Paris, Robert Laffont, 2003.

2 comentários:

  1. Olá Leitora agora Marinha,

    Que belo texto e que bela gravura escolheu para o ilustrar.

    Esta caracterização é-me familiar. Quando andei lá nos meus estudos de Grafologia, aprendi que esta é a caracterização base para interpretar a escrita.

    É logo o que salta à vista pela mancha global da escrita. Há as criaturas sanguíneas cuja letra se expande, solta, fluente. E há a escrita violenta, cheia de força, com uma energia atravessada por traços de agressividade. E há a escrita mole, sem energia, sem motivação. E há a escrita apertada, pensada, soturna.

    Quando se pega na escrita de pessoas que conhecemos, torna-se muito evidente. E isto nasce com a pessoa. A letra, neste aspecto, não se altera. Há aspectos, na escrita, que são conjunturais (nervosismo, variabilidade, impaciência, alegria esfuziante, etc) mas há outros que são imutáveis.

    Acho que já lhe contei que, por exemplo, eu que tenho esta coisa de gostar de interpretar a escrita e que sei o significado das coisas, quando escrevo, escrevo espontaneamente, incapaz, por exemplo, de mudar a inclinação, a forma como as letras se juntam, como as palavras ou as linhas se distribuem na folha.

    No entanto, não é por acaso que a grafologia é usada em psicologia: é que há manifestações que apontam para aspectos que merecem alguma correcção ou tratamento.

    Um dos casos extremos será o da tendência para o suicídio. Há aspectos na escrita que dão indicações nesse sentido. E, uma vez detectados, dever-se-á, claro, tentar perceber o que se passa por forma a tentar que essa vontade desapareça.

    Mas, enfim, o que escreveu não é sobre grafologia pelo que me calo já. Mas gostei muito do que escreveu. Como sempre está muito bem descrito e fundamentado.

    Um beijinho e bom fim de semana, Leitora.

    ResponderEliminar
  2. O que me diz é muito interessante. Desconhecia a importância da doutrina dos temperamentos para a grafologia, assim como não sabia quase nada desta ciência até ter referido os seus estudos, aqui e no seu blogue. Cada vez me parece mais fascinante.

    A letra, a nossa letra, é mesmo única, como uma impressão digital, mas mais expressiva, tendo em conta o que vai esclarecendo sobre a sua força reveladora.

    Fico a pensar nestas questões tão interessantes e lembro-me de pintures para quem o gesto, o traço livre ou o sentido matérico da pintura é, de diferentes formas, parte integrante e manifesta da sua obra: Pollock, Rothko ou Eurico Gonçalves...

    Tenha um muito bom sábado, abrasador

    ResponderEliminar