sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Correspondência

Terminada a leitura de:
António José Saraiva e Luísa Dacosta: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2011 (edição, prefácio e notas de Ernesto Rodrigues).
Este livro constitui o segundo volume do tríptico epistolar de António José Saraiva, tendo sido publicado já o livro António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2004 (selecção, edição, prefácio e notas de Leonor Curado Neves, com a colaboração de Ana Sequeira de Medeiros); o terceiro incluirá as cartas dirigidas a Teresa Rita Lopes. Assinale-se que, se o livro de 2004 reproduz algumas cartas de Óscar Lopes, ainda que em número reduzido, o de 2011 apresenta apenas as cartas de Saraiva, de 22 de Abril de 1961 a 20 de Dezembro de 1965, não sendo, assim, possível a recepção directa das palavras de Luísa Dacosta, continuamente evocadas. Explicação para esta omissão nunca é dada ao leitor, pelo que resta lamentar e esperar por uma eventual edição futura da correspondência de Luísa Dacosta.

As cartas agora lidas têm como vocativo “Minha Amiga”, o que desde logo mostra a relação que unia os dois intelectuais, relação de grande amizade e colaboração, como se evidencia a cada passo da leitura, seja através da discussão de ideias, seja pelas referências a pesquisas que Luísa Dacosta realizava em Portugal a pedido do seu amigo exilado em Paris, seja pelo constante reconhecimento do apoio moral e prático dado pela escritora.
Para além da matéria privada e particular, observam-se nestas cartas as impressões de Saraiva sobre política, literatura, política, filosofia, bem como considerações relativas aos seus trabalhos em curso. Também a crítica aos escritos de Luísa Dacosta publicados, especialmente às suas Notas de Leitura saídas n’O Comércio do Porto, surge em várias missivas, incentivando o intelectual exilado a sua Amiga a continuar. A referência à actividade literária da escritora é escassa, pois esta era igualmente escassa, no que respeita a obras publicadas (o seu primeiro livro, Província, data de 1955; o segundo, Vovó Ana, Bisavó Filomena e Eu, será editado em 1969), todavia citam-se, a propósito, estas passagens significativas: “E como vai a sua actividade literária? Continua a pensar no livro de contos de que em tempos falámos? Dê-me notícias a este respeito.” (p.96); “Agradeço que me tenha enviado (e que continue a enviar-me) a sua prosa de ficção. Creio que o seu caso é o de quem oscila entre o ensaio e a ficção pura, e lembro que a sua originalidade talvez esteja na possibilidade de reunir ambas as virtualidades num só texto. Estarei vendo bem? É por isso que eu a encorajaria a cultivar o modo «impressionista» que tanto me agrada nas suas críticas literárias. Não se deixe tentar pelo «raciocinantismo» (de que não consigo desembaraçar-me). Mantenha nos seus ensaios aquela frescura com que reage e o azul do mar, e até aquele género de prosa que não se embaraça com articulados.” (p. 130)

Esta correspondência constitui, então, um documento de uma época, com as suas vicissitudes políticas, económicas e sociais, estéticas, literárias e filosóficas, na Europa e em Portugal, em geral, e da mundividência do intelectual português exilado, naqueles anos sessenta do século XX. Traz mais um contributo para o retrato de uma geração. No entanto, não é este o único benefício da sua leitura; permite uma compreensão maior da obra de António José Saraiva e da sua personalidade, assim como um vislumbre do estilo e da personalidade de Luísa Dacosta. The last, but not the least,  as cartas agora publicadas revelam a importância da amizade e do diálogo fecundo entre os dois Amigos, como esta passagem deixa perceber: “O seu apoio, de você, Luísa, tem-me sido extraordinariamente bom e estimulante. Mas não maldiga nem lamente o tempo que tem gasto a escrever-me. Eu preciso de uma compreensão que vá além das ideias, porque, como digo ao Óscar, estas não são mais que um revestimento provisório, e que a gente deve sempre estar disposto a mudar de uma atitude vital, dentro da qual deve fazer-se a nossa coerência. Não calcula como lhe estou grato pela sua compreensão (que não quer dizer necessariamente concordância), para além da expressão ideológica de que me revisto.” (p. 96)

A fechar estas notas de leitura, destaque-se um apontamento de António José Saraiva sobre o seu tempo e o papel dos intelectuais na realidade então vivida, pela pertinência que parece ter para os depressivos tempos actuais: "A que ritmo bate o coração português? Sabíamo-lo em 1940; não o sabemos hoje. Tudo tem de ser repensado. E, por isso, talvez o dever mais urgente do intelectual português seja o de pensar seriamente a nova realidade, pensar asceticamente, sem concessões de oportunidade, sem considerações que não sejam as do próprio vigor do pensamento. A época é de transformação e desintegração, e, por isso, também de consciencialização de uma situação nova." (p. 91)

Sem comentários:

Enviar um comentário