sexta-feira, 16 de março de 2012

"femina, feminae" ou o espelho da Górgona


Louis Welden Hawkins, Eventail sur fond or, 1905



JUDITE, DULCE, LAVÍNIA E OUTRAS

A António Feijó


Judite, a que possui
Trança mole e dourada como o azeite;
Dulce, a doce; Lavínia, a hostil e cor de leite,
De quem um escravo fui;
Violante, desespero do marfim
E glória das trigueiras,
Linda e maldosa como um jardim
Rodeado de silveiras;
Maria, a pura como um lírio de altar;
Lia, a de tranças de silvestre aroma,
E Guiomar, a embriagante Guiomar,
Viciosa como a imperatriz Teodora,
Tods elas, todas! eu quisera amar,
Todas elas, todas! eu quisera ter!
Amá-las de fugida,
Amá-las de partida,
Prendendo-as sem me prender...
Quisera amá-las
Como o rio ama as flor's da margem debruçadas:
Vê-las, beijá-las, abraçá-las,
Embalsamar-me em suas bocas perfumadas
Dum perfume sem par,
Prendendo-as sem me prender,
E abalando como o rio para o mar,
P'ra nunca mais as ver...



Eugénio de Castro, Obras Poéticas I - Oaristos, Horas, Silva, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1968 (in Paula Morão, Salomé e outros mitos: o feminino perverso m poetas portugueses entre o fim-de-século e Orpheu - ensaio e antologia, Lisboa, Cosmos, 2000.)

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