quinta-feira, 5 de abril de 2012

Lições de Trevas

Fernando Guimarães, no seu livro intitulado precisamente Lições de Tarefas, define assim essas "licões":

"As lições de trevas ou lições de sexta-feira referem-se ao ofício nocturno ou cerimónia litúrgica dos últimos dias da Semana Santa. No século XVII surgem algumas obras musicais que lhes são destinadas; como era então dito, procurava-se ir ao encontro de uma «santa e salutar tristeza»."

Desse livro, selecciono este poema adequado à época:


ÚLTIMO REQUIEM

Onde fica guardado o tempo? Posso agora dizer
que é dentro dos olhos. Mesmo que se conservem assim límpidos
acabam por pousar neles algmas folhas. Desejaria
que fosse mais fácil este caminho onde se encontra
o vestígio de outros passos, uma voz quase extinta. Sei
como o repouso é menos que uma palavra. Dali vemos
as mesmas ondas que se julgava estarem há muito esquecidas,
a neblina parece ser um arco onde se reune
este pressentimento que vinha ao nosso encontro
sem o sabermos. Reservo alguns instantes para a pofundidade
da água; outros para o modo como estremecem as mãos.


Fernando Guimarães, Lições de Trevas, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2002. 

3 comentários:

  1. Que belo poema. Não conhecia bem este poeta mas estou a descobri-lo e tem sido uma agradável surpresa. Esta sua escolha é uma maravilha.

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  2. Também não conheço muito bem o poeta, conheço melhor o crítico, mas tudo o que encontro dele é óptimo. Já o li no Ginjal, não?

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