terça-feira, 23 de abril de 2013

A Pedagogia do deslumbramento, as abelhas e a agricultura


Em tempos de carência, a pequenez dos espíritos evidencia-se, a confiança e a alegria esgarçam-se. Neste contexto, aqueles que não aceitam a derrota tentam recorrer aos exemplos dos mestres que não se vergaram a modas ou ao fácil.

Luísa Dacosta pertence a este escol de professores inspiradores. A escritora defende a “pedagogia do deslumbramento”, que sintetiza assim: “Na minha infância, como não havia televisão, fui criada com histórias da tradição portuguesa. E empenhei-me em passar esse amor da palavra aos alunos, tentar deslumbrar os alunos pela palavra. A minha pedagogia pode não estar na moda, mas foi uma pedagogia do deslumbramento. A mim interessa-me deslumbrar os alunos.”[1] Destas afirmações, destaquemos o sentido dos afectos e do amor às palavras vivido pelo professor, assim avesso a burocracias e a qualquer aplicação de fórmulas autoritárias na sua arte, que não têm outro préstimo senão excluir os alunos, seres humanos, e substituí-los por autómatos. O que este método de ensino pretende é, ao invés, ajudar os jovens a serem livres, capazes de criar, ver e sonhar, de pensar por si. Isto nos ensina a escritora em Na Água do Tempo: Diário[2], nas páginas dedicadas ao seu estágio pedagógico, realizado em 1971/72, quando redacções habituais ainda estavam subordinadas a temas vazios como “Abelhas” e “Agricultura”, servindo a formação de cidadãos obedientes e conformes ao sistema – “Os «sim, senhor professor», «sim, senhor doutor», «sim, senhor inspector», sim… Os futuros adultos que não dão, nem põem, nem tiveram problemas, os que não sabem dizer «NÃO» Irra!”[3]

Às vezes tenho a impressão de que regressámos às abelhas e à agricultura, mesmo que travestidas de novas tecnologias ou de igualmente novíssimos temas ecológicos, sociais, panfletários… Parece que mudam os tempos, mas permanecem os atavismos.


[1] Luísa Dacosta, “Empenhei-me a deslumbrar os alunos pela palavra”, Jornal de Notícias, 25/06/1997 (entrevista de Fernando Basto).

[2] Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005, pp. 149-170. A escritora, em nota de rodapé, identifica estas páginas deste modo: “Esta Agenda Escolar «Folhas Soltas» é constituída pelos artigos publicados na Vida Mundial entre 29/10/71 e 12/05/72 e fez parte da minha tese de exame de estado”- p. 149.

[3] Idem, p. 170.

2 comentários:

  1. Olá Leitora!

    Gostei muito de ler o que escreveu. O deslumbramento das palavras - que coisa bonita.

    Percebo muito bem esse conceito e acho que foi porque tive professoras que despertaram em mim esse deslumbramento que hoje vivo tão perto delas. Lembro-me sobretudo da Professora Joana Meira que nos levava para o campo, e sentados no chão, em volta, líamos livros como o Platero e Eu, por exemplo. Líamos, falávamos sobre o que líamos, ela mostrava-nos o que não era evidente, e nós ali, ao ar livre, sentados em volta, naquela maravilhosa comunhão feita de palavras.

    No Ginjal acabei também de escrever sobre mais ou menos isto, as palavras dos outros que existem para tornar mais leve e boa a nossa vida.

    Um abraço, Leitora, e obrigada pelos belos excertos e apontamentos que sempre nos traz!

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  2. Pelo que escreve, percebe-se muito bem que as palavras também a deslumbram. Partilhamos esta paixão incompreensível para quem não a sente. Qual a sua origem? Atribui-a a algumas professoras, eu também, mas vejo o seu início nas histórias que me contaram na infância.

    Nós, os professores, somos confrontados com essa necessidade de despertarmos o gosto pela leitura e procuramos modos, caminhos. Enfim, conseguimo-lo ou não? É certo que este amor é semeado na infância, mas também é verdade que pode surgir mais tarde. Penso, por exemplo, numa aluna que tive no curso nocturno e na sua alegria em aprender e em começar a ler livros. Penso num antigo aluno que me contactou através do Facebook, 20 anos depois, para me falar do "rigor do trabalho" e do "gosto pela leitura" que teria levado das nossas aulas. Ambos os casos me surpreenderam e comoveram.

    Um abraço grande, querida leitora e escritora (não sei como chamá-la... Jeitinho?)

    Vou agora ao seu Ginjal

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