domingo, 29 de maio de 2011

Francisco de Sá de Miranda

Dois poemas de Sá de Miranda: o primeiro, sobre a Mudança, foi dito na RTP2; o segundo, um dos mais belos poemas de Amor da língua portuguesa, é para ler vagarosamente, com muito gosto:





O sol é grande: caem coa calma as aves,
Do tempo em tal sazão, que sói ser fria.
Esta água que de alto cai acordar-me-ia,
Do sono não, mas de cuidados graves.


Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
Qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
Incertos muito mais que ao vento as naves.


Eu vira já aqui sombras, vira flores,
Vi tantas águas, vi tanta verdura,
As aves todas cantavam de amores.


Tudo é seco e mudo; e, de mistura,
Também mudando-me eu fiz doutras cores.
E tudo o mais renova: isto é sem cura!


Sá de Miranda, Sonetos




Não sei q’em vós mais vejo; não sei que
mais ouço e sinto ao rir vosso e falar;
não sei qu’entendo mais, té no calar,
nem quando vos não vejo a alma que vê;

Que lhe aparece em qual parte qu’estê,
olhe o céu, olhe a terra, ou olhe o mar;
e, triste aquele vosso suspirar,
em que tanto vos vai, que direi que é?

Em verdade não sei; nem isto qu’anda
antre nós: ou se é ar, como parece,
se fogo doutra sorte e doutra lei,

Em que ando, e de que vivo; nunca abranda;
por ventura que à vista resplandece,
Ora o que eu sei tam mal, como o direi?

Sá de Miranda, Sonetos

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