quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Diário de Maria Amélia III

Chianca de Garcia, Aldeia da Roupa Branca


Dedicava-se ao ofício de lavadeira. Com pouco gosto, diga-se, mas cumprindo as tarefas esperadas e conformes: cantarolava vagas insinuações brejeiras, esborrachava o sabão azul e branco nos alvos panos, esfregava com zelo, batia as fronhas na pedra e enxaguava, diligentemente enxaguava a sua trouxa nas águas comuns; de vez em quando, também subia a voz, para chamar outra camarada de tanque ou, então, para fazer valer a sua opinião, que, assim, se destacava em expressividade. Estes dizeres guinchados, todavia, não lhe saíam com naturalidade, era preciso acordar os músculos do aparelho fonador, arranhar as cordas vocais, inspirar com convicção e, de seguida, com toda a força, lançar a palavra mole. Com tanto esforço, nem sempre conseguia entrar no bulício no momento certo, tropeçava, demorava-se, desarmonizava-se; enfim, estava sempre um pouco fora do ritmo. Era estranha, ou melhor, deste modo a poderia considerar o gaiteiro rancho. Por isso, acautelava-se. Estava sempre vigilante, recompunha o traje e a cantoria logo à mínima desafinação, de maneira a passar despercebida. Sabia que o seu destino dependia da invisibilidade e que o equilíbrio estava por um fio.
Só as noites eram suas. Entregava os trapos ao luar, recolhia-se e partia na sua barca. Buscava a cidade, demandava sonhos, procurava a palavra, a de sílabas de luz. Sim, só essa palavra mágica a poderia libertar, sabia-o bem, agora e desde menina. Sempre fora sensível ao seu chamado, sempre o seu eco fizera ninho no seu coração. Deslizava na sua corrente sanguínea, caldeava-se com os seus fluxos mais íntimos, era parte de si. Mas, ultimamente, sentia-se exangue, ensurdecida. As noites transmudavam-se em frio e sobressalto, em arrecadação de trouxas de alienígena freguesia. Qualquer coisa tinha tomado conta do sono e impedia a viagem. Perto, perto ainda um murmurinho de alegria, resistente. 



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