quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Liberdade de consciência e dom poético

A ouvir falar sobre Maria Gabriela Llansol e a gostar cada vez mais, e querer ler e reler e reler e ler. A aprendizagem não tem fim; hoje foi a tomada de conhecimento da sua pulsão de escrita, do livro contínuo que é a sua obra, na qual se movem os textos, transitando de lugares e de livros, seja qual for o seu género, seja qual for a sua forma. Escrita que desconstrói a narrativa convencional, para a fazer "deslizar" para a textualidade, lugar que nos pode dar acesso ao "dom poético", conseguida já a "liberdade de consciência".

Sobre estas questões, leiamos as palavras llansolianas:

"A textualidade pode dar-nos acesso ao dom poético, de que o exemplo longínquo foi a prática mística. Porque, hoje, o problema não é fundar a liberdade, mas alargar o seu âmbito, levá-la até ao vivo,
fazer de nós vivos no meio do vivo.
Sem o dom poético, a liberdade de consciência definhará. O dom poético é, para mim, a imaginação criadora própria do corpo de afectos, agindo sobre o território das forças virtuais, a que poderíamos chamar os existentes-não-reais.
Eu afirmei que nós somos criados, longe, à distância de nós mesmos; a textualidade é a geografia dessa criação improvável e imprevisível; a textualidade tem por órgão a imaginação criadora, sustentada por uma função de pujança____________ o vaivém da intensidade. Ela permite-nos,
a cada um por sua conta, risco e alegria,            abordar a força, o real que há-de vir ao nosso corpo de afectos.

Na verdade, proponho uma emigração para um LOCUS/LOGOS, paisagem onde não há poder sobre os corpos, como, longinquamente, nos deve lembrar a experiência de Deus,
fora de todo o contexto religioso, ou até sagrado.
Apenas sentir, ao nosso lado, dentro e fora de nós, perto e longe, uma realiadde inconfundível, incomunicável, incompreensível e inimaginável mas que é, como nós, à sua imagem, unicamente presença____________ que nunca poderão falar, e que entre si trocarão um texto sem fim, feito de sinais, gatafunhos, que escrevem, mutuamente que as nossas presenças não nos fazem mal, nem medo."

Maria Gabriela Llansol, "Para que o romance não morra" in Lisboaleipzig 1: O encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994.

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