"1908
1ª Agenda
[...]
Terça, 18 de Agosto
A Augusta também tem a suas horas de desfalecimento e tédio. Hoje - seria impressão minha apenas? - falou-me como se fala a um estranho, a alguém que nos não compreende.
Isso amargou-me. Não pude conter-me e disse-lhe: - Augusta, não mates este amor. Deixa-o morrer...
Começou a suster as lágrimas, a sustê-las, a sustê-las, e rompeu a soluçar despedaçadamente. Saí e fui deitar-me encolhido, a sofrer, a sofrer geladamente...
[...]
Terça, 6 de Outubro
Chego a casa da Augusta muito tarde. Está acordada e a chorar...
- Por que choras?
- Tu vingas-te tão secamente, tão cruelmente!
- Vingo-me!
- Pois não estás zangado comigo?
- Eu não!
Afago-a muito: ela aperta-me muito, num choro nervoso, convulso, como querendo impregnar-me o corpo, a carne de carinho... E eu pergunto a mim mesmo, maravilhado, se não estarei em face duma criatura rara, daquelas que só desejam viver a vida com um pedaço de pão e muitas ilusões..."
Manuel Laranjeira, "Diário Íntimo", in Obras de Manuel Laranjeira, vol. I, Porto, Edições Asa, 1993 (organização, prefácio e notas introdutórias de José Carlos Seabra Pereira).
Este trecho fez-me sorrir.
ResponderEliminarSorriso sibilino?
ResponderEliminarUma ironia, uma condescendência. Sibilino, sim, talvez.
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