quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Já o mar dá ramagens, e as dunas flores




O tempo passa, leva-nos com ele, e ficamos, mais sós, mais despojados, mais tristes. Calam-se os risos, partem aqueles que acreditávamos serem para sempre. Anoitece. Despede-se o dia, despedimo-nos nós da idade de acreditar. O sal das lágrimas já não se transforma em cristais de luz, é sempre e só sal branco, grão branco para nenhuns lábios cariciosos, sal de cozinha, e nada mais.
O que resta? As conversas à superfície do viver, minutos sem fim centrados em amenidades: gadgets, tarefas, pequenos acidentes do quotidiano, prazo de validade de todos nós, das mulheres em particular. Contrariamente ao que aparentam, estes circunlóquios não são vazios, são, ao invés, reverberações do medo e da resistência a Cronos. O mal do tempo procura mascarar-se, sair de si, transmudar-se em matéria controlável. Não será uma forma justa nem bela; será uma ilusão que percorre caminhos paralelos à busca de transcendência, quem sabe?, mas sem grandeza. Tantos caminhos, tantas vias, tantas veredas. Como escolher?
Ou, como não escolher? Apetece afastar os olhos do alto e da sempre valorizada pureza das essências, da procura da verdade e do certo, para contemplar o mar. Mais do que isso, apetece aproximar a cabeça da areia e ouvir a voz do profundo e do vasto, e deixar que se manifeste o antídoto para o veneno dos dias imparáveis.  Deste modo, se reverteria a malignidade da cronologia, no sentido destas palavras de Gilbert Durand:

“L’antidote du temps ne sera plus recherché au niveau surhumain de la transcendance et de la pureté des essences mais dans la rassurante et chaude intimité de la substance ou dans les constances rythmiques qui scandent phénomènes et accidents.” (G.D., Les Structues Anthropologiques de l'Imaginaire, Paris, Dunod, 1992.)

Da citação, destaco estas ideias: intimidade, substância, ritmo. De que modo as podemos encontar na nossa vida? Na partilha humana possível em cada jornada? Na rasura de velhas dicotomias, como aquela que separa espírito e matéria? Na atenção à língua que subjaz aos dizeres quotidianos, constituída por palavras leves, por palavras duras ou, menos que palavras, por balidos, guinchos, ritmo só? Não sei. Sei apenas que não estamos condenados ao furor, ao mal e à violência, à desarmonia. A vida floresce em toda a parte (quase), basta que a nossa imaginação não seque. E que os nossos lábios se abram num sorriso franco. E os nossos braços à dança, à beira-mar, mar adentro, onde calhar. Alma e corpo reunidos num ritmo amoroso: ondulação marinha, brisa da montanha, esvoaçar de vestidos de semana e domingueiros. E, claro, a correnteza das horas ficará muito melhor se matizada a eyeliner, bâton, blush, sombras diversas, verniz encarnado, rendada parure, e o mais que a criatividade encontrar. O prazo de validade é o limite da imaginação e da capacidade de criar máscaras. Afinal (não era Rilke que o dizia?), envelhecemos quando perdemos a capacidade de nos reinventarmos, a nós e aos outros, e não quando certas convenções o determinam. Quem diz que temos de ir ao laranjal às laranjas ou ao vale aos lírios? Porque não ao mar e às dunas? Já a cantiga popular no-lo ensina e a literatura erudita confirma: as separações e fronteiras têm a medida que as palavras mágicas quiserem...

(O vídeo encontrava-se ali, em Um Jeito Manso)

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